“Vá de táxi.” ou “Um conto sobre um guardanapo”

Se beber, não dirija. Vá de táxi.”, dizia o adesivo. Ele havia passado um tempo considerável tentando ler, antes das manchas tomarem formas de letras. Ou pelo menos, ele achou que muito tempo havia se passado, sei lá.

“Pfff”, ele pensou, fazendo um som engraçado com a boca. Beber é bom, e ele gostava, pois era uma ótima maneira de passar o tempo com os amigos. Também é ótimo para conhecer novos amigos, já que nem sempre os amigos voltavam. Talvez por que não lembrasse os nomes ou telefones depois.  Engraçado, reparara nisso pela primeira vez.

Mas alguns amigos são eternos. O velho John e o velho Jack, parceiros das noites.

“Pfff”, pensou de novo, embolando a língua ao tentar fazer aquele barulho engraçado. Babou. Limpou com o guardanapo. Lembrou que não tinha um guardanapo e viu que tinha usado a camiseta. De novo.

Hum, eu jurava que tinha um guardanapo na mão. Onde será que ele foi parar? Gostaria de encontrar ele e perguntar por onde andou.”- ponderava. – “Aposto que ele daria uma de espertinho, dize…” – HIC! – “… endo algo como ‘Mas moço, eu não tenho pernas para andar. Eu flutuo. Hihi’. O desgraçado ta rindo da minha cara.”. Olhou para o lado e sentiu sua cabeça girar. Apoiou-se no carro que tinha o adesivo na janela e se colocou ereto. Respirou fundo e viu que era uma péssima ideia e logo colocou o guardanapo na boca. Ficou feliz, pois evitou desperdiçar toda a bebida que já havia pago. Ficou triste pois lembrou que não tinha um guardanapo. Ficou com raiva ao lembrar que o guardanapo rira da cara dele. Maldito.

Apoiado no carro, olhou pra cima e empunhou sua mão ao céu escuro, num gesto de desafio. Se aquele pedaço de árvore morta achava que ia se livrar dessa, ahh, como se enganava. Ele ia pega-lo, amassá-lo, pisa-lo, estrangula-lo, esfaqueá-lo, jogá-lo no chão, colocar um molho por cima, deixar em fogo alto por três minutos e virar. Acompanhando um pouco de cerveja, pra ele e seu amigo Jack e depois ia pedir a conta pro chefe e sair de casa e… e… hum. Que diabo ele estava falando mesmo? Algo sobre uma conta, mas ele não queria falar de números agora.

Maldição, havia esquecido. Sentia que era algo muito importante o que estava pensando, por isso resolveu deixar outra pessoa lembrá-lo. As pessoas tinham a tendência de avisá-lo das coisas importantes, como “Tranque o carro, cara!”, ou “Mermão, o sinal ainda tá fechado!”, ou “Sabia que o Leandro da novela vai casar com a Josefa? Mas na verdade ele não sabe que ela é a vilã da caverna que quer roubar o seu dote e…AAAHHHHH!!!” e não lembrava do resto. Não sabia se esse último era muito importante, mas a mulher que falava e falava sobre isso parecia achar. Simpática, mas de certo com muitos problemas. Por exemplo, logo que havia chegado ao local de encontro com seus amigos, José, Jack e Johnnie, ela saiu gritando alto na rua sobre aquele lugar não ser nem perto de onde ela queria ir e que nunca havia ficado tão assustada na vida e chorando algo sobre querer achar uma delegacia. “Pfff”, lembrou. Trancou o carro. Entrou no bar.

_________________________________

Arghh, sua cabeça doía. Ainda era dia quando entrara lá, então resolveu pedir logo o almoço pro camarada de lá. Aquele Camarada era muito camarada, sempre trazia comida e bebida quando ele pedia. Lembrou que ele trabalhava lá, então fazia sentido. Sentia a cabeça pesar enquanto lembrava, e começou a pensar em parar de fazer isso. Mais dor.

O bar estava muito vazio, lembrava. Só ele e o Camarada estavam lá aquela hora, ao som da televisão falando sobre coisas que aconteciam de vez em quando na cidade. O Camarada trouxera o prato de bacalhau com arroz que ele havia pedido e o pôs em sua frente, no balcão, e voltou pra sua cadeira. A televisão falava e falava, mas eram só chiados para ele.“Tá de folga de novo?”, perguntou o camarada. “Pois é.”- respondeu-“Vantagens do trabalho”.

A televisão falava e o Camarada parecia mais atento agora ao que se dizia. Aquele bacalhau tava bom, devia pedir mais. Ou talvez uma coxinha. A televisão mostrava alguns policiais falando, e algumas pessoas falando, todos falando sobre algo. O Camarada ouvia e olhava para ele com aquela cara engraçada. “Você sabe alguma coisa sobre isso?”- lhe perguntou o Camarada. Tinha uma expressão engraçada, de dúvida misturada com indiferença. Respondeu que não sabia do que se tratava e que na verdade não estava prestando atenção àquelas pessoas contando histórias sobre carros e corridas e choros pelas suas vidas. Cabeça pulsante, mais dor.

____________________________________

 

Tentava agora se lembrar o que significava ‘Vantagem’. Não era importante lembrar isso, então desviou o pensamento da memória daquele almoço e se empenhou naquilo. ‘Vantagem’, ‘vantAgem’… ‘VantaGEM’, ‘antagem’,’lantagem’… ‘Lavagem’, ‘montagem’. “Chantagem.”-concluiu-“algo a ver com tirar chantagem de alguém.”. Parecia meio certo. Chantagem era quando alguém lhe fazia favores, certo?

Sentiu sua barriga subindo. Apagou por um segundo e perdeu o equilíbrio. Pisou forte com o pé no chão molhado e pegajoso, o que foi estranho, por que sabia que o chão não estava pegajoso um minuto atrás. Olhou pro seu pé e ficou triste ao descobrir que cerca de R$12 estavam espalhados pelo chão e no seu sapato. “O que o guardanapo diria sobre isso, se estivesse aqui agora? Sujeito legal ele, o guardanapo. Queria que ele estivesse aqui pra me contar uma história da cidade”. Falava em voz alta, sem perceber. “Eu também tenho histórias da cidade, coisas loucas que acontecem todo dia no meu trabalho. As histórias do guardanapo não tem a menor chance e…”

FUUEEEEEMMMM!!!

Puta-merda, se assustou! Buzina dos infernos! Notou que estava no meio da rua agora e em um breve momento de lucidez, por conta do susto, percebeu que estava ali há um bom tempo. Quando foi que ele tinha apagado mesmo? Chutou algo em torno de 4, 10 ou 90. Segundos ou minutos. Ou talvez menos. O carro bastardo com a buzina dos infernos deu a volta nele enquanto ele se  lembrava que havia desperdiçado bebida. Saiu buzinando na noite. “Inferno! Bastardo! Maldição! Guardanapo da porra, vai me pagar.”, gritava e balançava o dedo pro motorista que não o havia atropelado.

Girava e gritava e girava e dançava e gritava e cambaleou. Mão no carro, mais gritos e sentiu algo na nuca. “Cala boca, porra! Tá atrapalhando o pessoal do meu bar!”, gritou o Camarada. Ah, o Camarada, seu grande amigo. Como poderia retribuir a sua preocupação? Pensou em contar pra ele sobre a bebida perdida e ver se podia fazer uma troca, mas o Camarada já voltava para dentro. Grande sujeito.

Toda aquela agitação, barulho, adrenalina e perda de bens líquidos o deixaram um tanto desperto. Sua barriga estava estranha, leve. Vazia. E sua cabeça já não girava tanto. Resolveu sentar na calçada. Péssima ideia.

“Que noite.Que dia.”. Olhou pro céu escuro, e depois para a luz do poste no fim da rua. “Onde estará aquela dona de hoje mais cedo? Será que ela encontrou seus amigos da caverna ou como é que era mesmo?” Estava se sentindo bem. Que noite. Pensando bem, agora com mais clareza, aquela dona parecia com uma outra dona que apareceu na televisão, no almoço. Que mundinho. Será que aquela dona sabia que tinha uma mulher parecida com ela na tevê? Que dia.

Colocou a mão no bolso. Chave, cartão, papel amassado, balinha. Puxou tudo para fora e examinou. Chave do carro, cartão de papel com uma foto sua, bilhete de parquímetro e balinha de laranja. Sem dinheiro. Resolveu que já era hora de se despedir de Johnie, Jack e José. Como ele havia chegado a sentar na calçada? Se levantou, ponderando por que mesmo que ele havia sentado em primeiro lugar. Olhou pro carro do seu lado e notou algo na janela. Dizia: “Se beber, não dirija. Vá de táxi.”. Ficou encarando aquilo por um tempo. Aquilo fazia sentido, achava. Pensando bem, fazia muito sentido. Aquilo era ótimo para ele, se as pessoas que lessem o adesivo fizessem o quê ele dizia.

“Ei amigo.” Um outro camarada, saído do bar, meio sorridente, meio perdido, falava com ele. “Você…”-HIC!-” Cê sabe onde tá o dono desse táxi?”

Respirou fundo e viu que estava ótimo.

“Sou eu mesmo senhor. Pode entrar.”

Dias. Pedro.
Mais um original No Aéreo, atrasado cerca de 7 meses e 12 dias.

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Comments
4 Responses to ““Vá de táxi.” ou “Um conto sobre um guardanapo””
  1. Clecio disse:

    Tá cada dia melhor… Parabéns!!!

  2. Olha, Um conto muitíssimo interessante. Dá pra montar um curta a partir dele. Uma sequência de 4 ou 5 cenas mto bacanas.

    Parabéns, Pedro. Mais uma vez. É sempre muito bom ler o que vc escreve.

    Grande abraço!

  3. Victor Carity disse:

    Já tem meu selo de aprovado, mesmo se tratando de álcool.

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  1. […] – “Vá de Táxi” : Uma crônica, até onde eu entendo, é um pequeno conto, bem pequeno, sobre algo um tanto […]



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