As pequenas coisas.

São as pequenas coisas, os detalhes, todas as partes que compõem um todo, que importam. São as partes que contam. São as pequenas coisas que carregam história, que montam o quadro maior, do que quer que seja que elas façam parte.

Por mais que você goste e admire algo, nada existiria se não houvesse um ponto de partida, uma origem em um pedaço menor. Tudo sempre é composto por pedaços menores. E não diferentemente, tudo compõe um quadro maior. É assim, impossível ser de outra maneira. Nunca muda. O que muda é somente o foco.

O foco. A atenção que se dá em dado instante à um dado momento, ou objeto. Ou pessoa. Ou lugar. Ou ao todo, seja qual for. Uma personalidade não é única sem motivos.

Admiramos um quadro pela sua pintura, e pelo que ela representa. Ou o que poderia representar. E pelas cores. E pelas pinceladas. E pelo estilo do pintor. E por aquele detalhe que não se destaca completamente, mas que você encontrou enquanto analisava a imagem e percebeu que aquilo representa uma intenção do artista. E agora você sente que entende mais, que a imagem falou o que realmente tinha a falar. E você encara tudo de novo com novos olhos e novo foco.

Admiramos uma música pela sua melodia. E se não, talvez pela letra. Talvez por que soe como poesia, talvez por que reflita seu próprio modo de encarar a vida. Talvez a música seja simplesmente uma música, e você não sabe exatamente o quê te agrada nela. Mas sabe que algo ali, algum detalhe te chama a atenção. Um suspiro. Um riff. Uma nota. Uma combinação de pequenas coisas.

Eu posso gostar de pessoas por milhões de motivos. Tenho certeza que minhas razões para isso serão diferentes das suas. Afinal, são tantos detalhes diferentes que podem me agradar ou irritar. Minhas afinidades são diferentes das suas. Talvez nós três gostemos da mesma canção, mas só dois de nós gostamos pelos mesmos motivos. E talvez por isso, um de nós não se torne tão amigo quanto. Talvez o quê o faça se identificar mais conosco seja a admiração que nós temos pela vida e o modo singular com que nós três encaramos o universo e sua infinitude.

A vida. Tão subjetiva ao ponto de ser uma questão ainda não resolvida. Mas até onde podemos encarar e entendê-la, já é o bastante para dividir águas. Tem quem goste, quem não goste. Os motivos sempre variam, pois os detalhes são diversos. Duas pessoas são capazes de encarar uma mesma mancha azul no chão e nunca verem a mesma coisa. Simplesmente por que não são a mesma pessoa. Ora, nem uma mesma pessoa é capaz de encarar a mesma situação duas vezes da mesma maneira, que dirá de alguém que compreenda a situação de maneira diferente.

A percepção de cada um é algo que nos diferencia. E a percepção é moldada por tantos fatores. Cada experiência vivida, cada possibilidade perdida. Desde o modo de pensar até o nível genético. Pois sim, somos limitados fisicamente. Cada cabeça tem um motor, mas nunca é o mesmo modelo. Cada ligação neural conta, pois cada impulso importa.

Eu gosto do Planeta. Apenas Planeta. Ele nunca é o mesmo em dois lugares, ou dois instantes. Talvez por que seja tão grande. Talvez eu goste mais daquilo que o faz ser grande, uma diversidade complexa. De climas, paisagens, culturas. De vida. E também a esperança que isso tudo é capaz de trazer.

Esperança, expectativa, o que quer que seja que se chame. Mudanças e diferenças. Ou até mesmo a continuidade, pois o que é bom não queremos deixar passar.

Talvez seja o sorriso. Talvez seja um olhar. Talvez seja o som da sua voz, ou o que se diz com ela. Talvez seja o céu azul, talvez seja o canto das aves. Talvez seja a vontade de ver isso longe de casa, do outro lado do planeta. Se sua voz vai ser a mesma para mim quando estivermos lá, se o Sol descer sobre nós do mesmo jeito. Tantos talvez, tantos poréns. Talvez eu só goste de você, mas você não é uma peça só. É um quebra-cabeça, que me quebra a cabeça. E sua existência compõe um quadro maior.

Eu sou capaz de me emocionar uma vez com um pôr-do-sol. Porquê eu gosto da noite. Porquê eu gostei do dia que passou. Porquê eu sei que haverá um nascer do sol. Talvez nunca o mesmo motivo, ou talvez um muito parecido. Eu sou capaz, sim, de olhar duas vezes a mesma coisa e me deixar levar pelo mesmo detalhe, pois esse detalhe é lindo, é penetrante, é constante. E é de tal maneira que eu serei uma pessoa diferente, mas ele não. Sua presença, seu motivo, sua razão irão perdurar. E sua história me acompanhará.

Eu sei que tudo faz parte de algo, e eu admiro as peças que as compõe. Pois cada pincelada tem uma motivação, cada acorde tem uma inspiração. Cada olhar, uma razão. Cada sorriso, uma paixão. Paixão por algo, outro ou alguém. Sei que cada hora de um dia jamais voltará, e que cada segundo se passa com a mesma precisão. Constante. Sei que durante minha vida, jamais saberei tudo, pois tudo nunca é o mesmo. Mas passarei ela tentando.

Dias. Pedro.

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Comments
5 Responses to “As pequenas coisas.”
  1. xykoh disse:

    Emocionante!!!! Lindo!!!!

  2. Dias. Pedro disse:

    Por favor, contenham suas lágrimas.

  3. Anne Tremonti disse:

    Cara, eu quase chorei!

    Realmente, o que compõe cada personalidade são as pequenas coisas que vivemos. O que torna cada um único é o seu propósito, a maneira como vivemos, ou optamos por viver, ou somos obrigados a viver…
    O propósito depende não só da pessoa que o possui, mas também do momento que é vivido. Daí a felicidade ser relativa. Para alguns, se o propósito é alcançado, a felicidade bate à porta. Para outros, os que talvez se apeguem mais às pequenas coisas, a felicidade é encontrada no mais simples. O que talvez a torne mais prazerosa. Mas no fim das contas, qual o propósito?
    É impressionante como alguns buscam viver desenfreadamente, sem se importar com o sorriso no rosto do outro, sem deixar rastros de sua passagem… Sem se importar com o olhar carinhoso que lhe é lançado momentaneamente. Com a presença da qual sentimos falta. Com a voz que não mais ouvimos. Com a palavra. Com o sms! Enfim, com o carinho dos que te amam.
    O que nos faz completos, felizes é o carinho com que olhamos as pequenas coisas. É o modo como tratamos todos à nossa volta: amigos, conhecidos, parentes, nossas paixões reprimidas… É a atenção que damos a cada suspiro.

    Não guarde mágoas, não faça ao outro o que não quer que te façam e, o mais importante, procure amar os que te amam. Lhes dê atenção. Ligue, mande mensagem, acenda a fogueira e mande um sinal de fumaça! Mas se faça presente. Às vezes é só o que o outro precisa para sorrir. Para seguir em frente. E sorrir é uma das pequenas coisas. Uma pequena coisa que te leva mais longe. Quem já não se perdeu relembrando um sorriso?! Ou seu, ou de alguém especial, não importa! O importante é que essa pequena coisa está lá.
    Pessoas também são pequenas coisas! Quando combinadas, as pessoas fazem parte de algo maior, de lago inexplicável, algo de que não fazemos idéia. Pensa aew!
    Eu, por exemplo, procuro ser a combinação perfeita para cada um dos meus amigos. Faço questão! Mas por que quase perfeita? Simplesmente porque ninguém é perfeito! Nada é perfeito! Podemos ser os melhores amigos, mas como humanos imperfeitos acabamos decepcionando as pessoas à nossa volta, cedo ou tarde.
    Eu gosto de sair nas noites de chuva. Principalmente porque confundem minhas lágrimas com a chuva. Quando estou encharcada da chuva ninguém percebe que chorei, afinal de contas você está encharcado!
    Mas no fim das contas por que eu choro?
    Talvez porque dou muito valor às pequenas coisas de tal modo que sofro mais pela dor alheia do que pela minha própria. Mas isso não me impede de ser feliz! Para mim, o infinito tem fim. Só depende de onde eu observo. Do ponto de partida. De onde quero chegar.

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  1. […] só estes. Claro, tem outros que eu gosto, como “The cute girl with a straw hat”, “As pequenas coisas”, ou o recente “Perversa”. Mas esses são muito recentes, e ainda estão na lista de […]



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