“Perversa” ou ” Um conto sobre uma tarde cinzenta”

– Que diabos você fez comigo?!

A chuva lá fora era carregada pelos uivos dos ventos por entre os prédios. A cidade lá em baixo parecia encolhida, calma, quieta.

– Você é algum tipo de bruxa?

As nuvens cinzas se tornavam imponentes e gigantes, e os arranha-céus da cidade se recolhiam em comparação. Cada ponta de cada prédio, cada luz em cada janela. Tudo estava silencioso. Todos que podiam, se recolhiam das ruas para suas camas ou à de outras pessoas. Carros apressados seguiam seus rumos.

– Como você fez isso?

As gotas de chuva batiam forte nas janelas. No apartamento, tudo estava parado. Sem luzes acesas, sem televisões ligadas, sem computadores por perto, sem celulares à vista. As imensas janelas permitiam apenas que as luzes do dia cinzento lá fora se transpusessem para dentro do apartamento.

– Eu odeio você!

O clarão de um relâmpago lança fortes sombras de gotas de chuva sobre as costas dela. O som do trovão à distância chega instantes depois, sem pressa. Indícios de que a chuva ainda vai continuar por muito tempo.

Do outro lado da cama, ela se mantém sentada, pernas cruzadas ao  seu lado. Eu não vejo seu rosto, sua voz não faz menção de responder minhas perguntas. Sua falta de resposta me irrita profundamente. O lençol esconde parcialmente suas pernas de mim, e isso me irrita profundamente.

– Por que você fez isso? Droga, não devia ser assim. Eu odeio você.

– Não, você não odeia. – ela responde.

Eu paro de me mexer. Ela para de falar. A tarde cinzenta segue em frente.

Eu já devia saber melhor do que isso. Por que eu deveria esperar qualquer coisa diferente? Todos os sinais estavam lá desde o começo, e talvez, se eu tivesse prestado atenção à eles, nada disso estivesse acontecendo. Talvez por que fossem tão pequenos, talvez por que fossem tão óbvios, talvez eu tenha escolhido não vê-los.

E afinal, quem é ela pra dizer quem eu odeio ou deixo de odiar? Eu devo saber de mim mesmo, e certas coisas são fortes demais para serem confundidas. Eu desisto de debater, por ora. É inútil, não consigo pensar claramente.

Olhe pra ela, achando que sabe o que está acontecendo, achando que está no controle. Maldição, olhe pra ela, costas nuas e cabelos caídos, gotas sombrias escorrendo por ela. Maldição, fui eu quem permitiu que tudo chegasse aqui.

Mas por que eu deveria me culpar? Afinal, eu não fiz isso sozinho comigo mesmo. O quê está acontecendo? Eu estou hipnotizado, é claro que foi ela. A  culpa é dela! É claro!

– Eu estou hipnotizado. QUE DIABOS VOCÊ FEZ COMIGO?! – eu grito.

Seus pés descalços tocam o chão. Está frio, eu percebo isso pela hesitação dela em se levantar no começo. Ela volta o olhar direto para o céu e os prédios à frente, e caminha em direção à janela. Ela começa a brincar com seus dedos, seguindo a chuva do outro lado, deslizando juntamente com qualquer gota particular que ela escolheu. Fingindo que controla seu caminho, acreditando que eu sou apenas isso. Uma gota que ela escolheu durante a chuva.

– Por quê você está tão exaltado? – ela pergunta.

Por quê eu estava tão exaltado? Por que eu sei o quê está acontecendo. Eu sei o quê acontece depois, e eu sei que vai doer. Na minha mente, eu sempre soube. Mas eu não quero admitir. Não, eu não POSSO admitir! Eu fui avisado, eu fui preparado, eu sobrevivi antes e aprendi a não deixar nunca mais que acontecesse de novo. E durante muitos anos, eu segui, sabendo exatamente o quê fazer e o quê não fazer. E ela sabia. De alguma maneira ela soube como. E por isso ela está aqui.

-POR QUE VOCÊ ESTRAGOU TUDO! QUE DROGA! QUEM É VOCÊ?

Outro relâmpago esconde seu corpo atrás de sua sombra. Sombra que me segue.Um instante depois, o reflexo de seu olho me encara da janela. Tanta calma, tanta serenidade. Tão quieta. Aquela mulher contemplativa não se parecia em nada com a que eu havia conhecido. Não havia expressões de raiva em seu olhar, não havia medo, não havia nada naquele momento a não ser a expressão compreensiva de quem sabe o quê fez. Claro que ela sabe. Agora.

Talvez minha raiva seja infundada. Afinal, por que eu estou culpando ela? Se na verdade, fui eu quem permitiu tudo isso? Eu que baixei a guarda, eu que deixei ela entrar.

Lá, aos pés do sofá, vejo as roupas que se empilharam. O quê eu estou dizendo? Não! A culpa é dela! Tem que ser. Eu jamais permitiria que isso acontecesse de novo. Por que é tão difícil para eu entender, tão difícil de pensar? Foi ela, mas o que foi ela?

O cinza da tarde começa a se tornar escuro. A cidade lá embaixo começa a acender suas luzes. Um calafrio, quase imperceptível desce pelo seu braço e em direção aos seus pés e ela se volta em minha direção. Encara por um segundo, com aquela expressão sentida. Sorri, com um rosto de compreensão. Ela não pareceu, em nenhum momento, ter se arrependido do quê fez. Em nenhum instante, demonstrou qualquer intenção de se desculpar. Ela não se arrepende do quê fez. Mas eu não sei ainda por que ela fez. Merda.

– O quê você está dizendo, você sabe quem eu sou. Não aja como se tudo isso fosse estranho.

Por que ela se sentia tão bem?

– Eu não te reconheço mais. Não do jeito que eu me sinto agora. Nessa posição que você me colocou. Você fez isso de propósito, admita! Você planejou tudo, e pelo raio que me parta, eu preciso saber o por quê!

Por que ela quer me machucar?

– Do quê você está falando? Você está tão agitado aí, falando do quê eu fiz e como eu não deveria ter feito o que fiz. O quê exatamente você diz que eu fiz? – Ah, ela é má. Ela quer que eu diga.

De costas para o céu, apoiada contra a chuva, ela fica esperando. Aguardando cada instante, o momento em que eu gritar…

– POR QUÊ VOCÊ ME FEZ ME APAIXONAR POR VOCÊ? – toda minha calma já se foi há muito tempo. Mas o que eu tinha de força, que me evitou aceitar isso até este momento, se foi com a voz dela.

Ela ri com ela mesma, tampando sua boca com a ponta dos dedos. Como me irrita que ela se divirta tanto com isso. Como me aborrece que ela tenha todo esse controle sobre mim. Como me enfurece que por mais que eu queira ela fora daqui para sempre, minha vontade de ficar com ela mais um segundo é tão mais forte. E a cada segundo eu perco uma batalha.

Passo, passo. Ela volta em direção à cama, devagar, passo a passo, brincando de me fazer ouvi-lá andar. Minha cabeça está rachada, sangrando, escorrendo pensamentos incompletos, decisões conflitantes. Por quê ela demora tanto a vir? Ela é perversa, incitadora.

A pior coisa que acontece a um homem é se permitir apaixonar. É uma droga, no sentido prático da coisa. É viciante, é alucinante, e você sempre vai querer mais. Baixa suas guardas, te deixa indefeso, te destrói sem você notar. Homens não são tradicionalmente fechados à toa. A maioria sabe melhor do que cometer esse erro, de mostrar aos outros que é tão fraco como eles. Muitos são apenas babacas, outros apenas sabem exatamente como as coisas funcionam. Nós vemos nossos amigos e nossos inimigos caindo nessa armadilha, um atrás do outro. Testemunhamos a devastação de quando acaba, a abstinência da ausência de outra pessoa. Sabemos então que devemos, para nossa própria segurança, jamais demonstrar o que realmente sentimos. Pelo menos, no começo. Esse é o momento perigoso, a hora errada. Há muito a se saber ainda para se expôr tanto.

É por isso que eu odeio ela. Por isso que eu me odeio. Eu vi os sinais, eu já vivi eles antes. E é por isso que eu temo agora, pois eu sei que por mais que eu me sinta bem agora, por mais que ela seja tudo que eu queira agora, o temor e a ansiedade do resultado invariável me martelam a mente nesse momento. Racionalmente, eu deveria tirá-la daqui agora, e para sempre. Mas minha razão se esvai sempre que a olho, a ouço, a sinto. E agora eu sei o que eu deveria saber desde o começo: Eu jamais tive a menor chance. Não com ela. Não, pois ela sempre quis que isso acontecesse, desde o começo.

– Sabe, você deveria se acalmar agora. – sussurra no meu ouvido. – Já está feito. Abrace  o momento. Não precisa mais lutar.

Lutar, como se eu tivesse feito isso em algum momento.

– Porque? – eu pergunto baixo, cansado. – Porque você quer me machucar?

De volta na cama, de volta em baixo do lençol comigo, ela me abraça. Como eu consegui me abalar tanto com ela, apenas alguns momentos atrás? Para onde foi toda a raiva? Se eu realmente tinha uma razão, ela me parece tão estúpida agora.

– Por quê, meu querido… Eu não queria ser a única a me magoar.

As palavras que saíram dos lábios dela não poderiam ter sido mais esclarecedoras ou mais reconfortantes. Então, não havia sido pura maldade. Ela compartilha dos mesmos temores que eu. Ela é, afinal, apenas humana.

As luzes da cidade lá fora eram as únicas luzes dentro do apartamento. Clarões de faróis de carros mal chegam aqui. E fracamente, eu continuo a ver gotas sombrias correndo o chão, e o corpo dela.

– Além do mais… – ela diz – …eu jamais tive a menor chance contra você.

Um conto original NoAéreo.

Devo dizer que estou particularmente orgulhoso dele. Por outro lado, eu sempre sinto isso depois de escrever um. Depois de um tempo, quando eu leio de novo, sempre parece errado…. Mas eu não sei. O único arrependimento imediato que eu tenho é não ter a imagem pronta ainda. Eu vou melhorar ela. Aguardem.

Dias. Pedro.
Update: Ok, a imagem não melhorou muito, mas eu gostei de como ficou. =J

Update2: Muitos meses depois de escrito, releio este conto e vejo que eu realmente continuo gostando dele. Ainda não vi nada errado nele, então, continuo orgulhoso com ele.

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Comments
9 Responses to ““Perversa” ou ” Um conto sobre uma tarde cinzenta””
  1. xykoh disse:

    A ilustra também é bem legal!!!

  2. Fabiane ZP disse:

    Eu gostei! E o suspense prende o leitor! Muito bom!

    E quanto ao fato de se sentir orgulhoso dele depois de escrever e logo após um tempo, quando se lê de novo, parece errado ou incompleto… É normal! Também passo por isso todas as vezes que escrevo! (e conheço escritores que sentem a mesma coisa, hehehe…)

    Beijões e muito obrigada por ter passado no meu blog!

    • Dias. Pedro disse:

      Pois é, tenho ouvido isso bastante (quanto aos escritores que não gostam do seu trabalho).
      Mas eu que agradeço pelo feedback. Eu curti os seus textos também, achei muito bem escrito. Mas eu só vi um monte de 1ºs capítulos e nenhuma sequência hehehe

  3. Cath disse:

    clap clap clap aplausos, texto rico em suspense, conseguiu prender o leitor.. nem queria ler todo na preguiça que to, mas quando vi ja tinha terminado. venda livros e fique rico.

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