“Perverso” ou “Um conto sobre um gentil canalha”

-Você já vai?… Não quer comer alguma coisa antes, relaxar um pouco?

Ele vestia sua camisa em silêncio e a mulher deitada entre as cobertas parecia desconcertada.

-Então, eu sei que isso era… ‘É’ algo de uma noite só, mas talvez você quisesse fazer algo amanhã ou semana que vem? Juntos.

O quarto ainda estava escuro pois poucas horas haviam se passado e do meio da cama, ela se sentia cada vez mais confusa, e o homem não falava uma palavra enquanto vestia seu sapato. Ela não sabia como se sentir menos boba com a situação, ela não era de se apegar. Na verdade, parte da confusão é que ela não estava realmente apegada. Como se apegar a um estranho que havia conhecido a poucas horas? Mas ele nessas poucas horas tinha sido tão… único.

-Talvez um café, ou algo do tipo. Apenas conversar, quem sabe.

-Olha guria, eu adoro café, mas eu prefiro tomar o meu sozinho.

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Desceu do prédio e ficou em pé na calçada fria da madrugada. Tirou o maço de cigarros do bolso e desamassou o último cigarro restante. Acendeu o cigarro, e lá em cima, uma luz se acendeu em uma janela, do apartamento onde deixara uma mulher confusa. Não olhou para cima, não viu a janela e começou a caminhar rua abaixo. E da janela, um par de olhos o seguiu.

Na rua, alguns carros estacionados junto a calçada e as únicas outras almas vivas eram um morador de rua e seu cachorro dormindo em cima de uma caixa de papelão. Passou desviando deles, procurando não pertubar a única coisa boa que ele e seu cão deveriam ter ainda, seu sono. Jogou a ponta de cigarro ao meio fio, estava estressado.

Alguns metros a frente, viu um clarão vindo de trás se refletir no chão a sua frente, ouviu latidos e um grito. Ali onde havia caído a ponta em brasa, havia uma planta de mato que se acendera em chamas e começara a se alastrar, pegando a calçada, quase alcançando a cama improvisada. Virou, atônito com o que acabara de fazer. “Que tacada de sorte”, pensou em tom sarcástico. Parecia que ultimamente tudo o que fizesse, bem ou ruim, estava tendo consequencias ruins, e viu aquele homem apagar a chama com sua última garrafa de água. Procurou em seus bolsos algum trocado que pudesse compensar aquele homem pelo susto e pela água, mas não encontrou nada que ajudasse. O fogo se apagou e ele encarou fundo os olhos do desabrigado. O homem o encarou de volta do cinza do seu olhar, seu cachorro também. Por dois segundos se encararam e por fim deu as costas aos dois e seguiu seu caminho rua abaixo e agora mais dois pares de olhos o seguiam.

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Não sabia porque havia se tornado assim, uma pessoa tão fria e tão sem compaixão. Ou talvez soubesse, sempre soube na verdade. Aquela guria-mulher, tantos anos antes, o havia mudado. Ele se sentia mudado, mas teria sido culpa dela mesmo? Talvez não fosse ele mesmo o problema, e a usasse como uma desculpa fácil? Não, ele havia mudado com ela, antes e depois. Por mais responsável que ele fosse por si mesmo, algo dentro dele havia mudado, quebrado depois dela.

Ele não era realmente um cara frio, ele conseguia ser sempre o cara mais gentil e cuidadoso na verdade, mas de alguma maneira, seu jeito de agir o levava a ser um verdadeiro babaca às vezes. Completamente sem intenção, conseguia machucar ou prejudicar aqueles que mais lhe queriam bem. E desde aquela primavera em que ela o deixou, começou a perceber mais claramente que suas ações já não refletiam igualmente seu jeito de pensar. Seus pensamentos eram um e suas atitudes eram outras. No começo, ele tentou compreender o porquê dessa diferença, depois de um tempo sem entender passou a racionalizar, mas por fim, sem entender nada ainda, resolveu aceitar. Passou a parar de brigar consigo mesmo, de se preocupar em consertar maus entendidos e decepções e viver de acordo com suas ações. Se era pra estragar as coisas fazendo bem ou mal, ia então dar motivo para isso.

“Você está quebrando TUDO!”, ouvia um grito na memória. E tudo ecoava em sua mente, a voz daquela guria que havia tido o azar de conhecê-lo, tão cedo após ele mesmo ter sido quebrado. Tanto tentou ser sempre verdadeiro e sincero com ela, sempre procurando agir diferente de como aquela… aquela outra mulher havia agido com ele anos antes. Como podia ser tão difícil gostar de alguém e toda sua razão lhe gritar que não devia ficar com ela? Saber dentro da sua mente que iria machucar aquela guria se continuasse com ela. Naquela época tentava ainda sempre fazer o certo e errava, procurava agradar e machucava. Sabia que gostava dela, mas nunca sabia dizer o quanto, já não sabia mais medir suas emoções entre gostar e amar. A maldição da ambivalência lhe caiu com todo o peso que a indecisão tinha sobre si, desde aquele dia. Desde que… ela…

Aquele ser perverso por quem se apaixonara anos atrás, que mexera tanto com sua cabeça e seu coração, e que o havia deixado tão sem mais explicações quanto havia entrado em sua mente. Ela o havia quebrado por dentro, e agora ele mesmo quebrava aos outros. Tanto havia resistido a ela, tanto se deixou levar, tanto se apaixonou. Disse nunca ter tido chance contra ele, pois sim. E hoje, ninguém mais tem chances com ele. Sua confiança em se envolver com qualquer outra pessoa havia ido junto com ela, só ele não sabia disso ainda. Já não sabia mais reconhecer nele mesmo seus sentimentos ou pensamentos com qualquer outra mulher. Procurava tentar entender, mas quanto mais pensava, menos entendia e acabava por não pensar mais. E seguia sem entender, vivendo sempre o momento e sem esperar nada de ninguém. Acreditava que expectativa era, depois da ambivalência, a pior desgraça que pode se abater a uma pessoa. Havia quem discordasse dele, que expectativa não era algo ruim, principalmente quando era atendida. Mas sua vida o fez ver de outra maneira, transformando-o pouco a pouco em alguém cético e frio, difícil de se conviver.

Fazia agora o que haviam feito com ele, se tornando seu maior defeito e cada vez mais percebia isso. Que infernos, ter de descobrir o mal que fazia depois de tudo que tentava fazer de bom. Na verdade, existiam apenas duas pessoas no mundo que sabiam que ele havia mudado: ele mesmo e a guria que ele quebrou, aquela que sempre ecoava gritando em sua mente. Pois aquela ainda conheceu um homem que não sabia o que havia acontecido com ele. Ela levou a maior pancada de todas, ao conviver com um homem que aos poucos ia descobrindo que suas intenções já não valiam muito, que suas ações foram distorcidas. Uma tortura de alguns meses antes do fim definitivo. Todas as outras só conheceram um monstro de duas caras, que agrada na conversa e destrói na despedida.

A maioria delas foram casos insignificantes para ele, mas algumas delas poderiam ter sido algo muito melhor. E essas lhe deram material para pensar e descobrir mais sobre si. A ‘perversa’ foi o marco zero. “Você está quebrando tudo” foi a primeira. A “você tem medo de se apaixonar de novo” foi a quinta. “Você prefere machucar primeiro do que se machucar”, aquela bela mulher, a terceira. Mas toda descoberta que fazia não o ajudava muito, pois continuava sempre agindo errado, pensando certo ou errado. E não tinha intenções de mudar. Voltar a ser o cara que ele foi significava voltar a ser vulnerável, abandonar a máscara  impenetrável que cultivara para se proteger. Não, seguiria naquela vida. Pelo menos, até algo novo aparecer.

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E um dia…

O conto acima é um esboço feito agora. É provável que tenha modificações, já que dá pra ver que está inacabado.

Para maior referência, leia também Perversa.

~Dias. Pedro.

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