Moderno Antiquado

Eu adoro tecnologia, o progresso e as inovações que acompanham tudo isso. Eu desde pequeno, graças ao meu pai que também sempre foi um technoholic, sempre tive um bom contato com tecnologias consagradas e emergentes. E quando eu digo consagradas e emergentes, eu pareço um tolo para qualquer um hoje em dia, pois me refiro a desktops consolidados com poderosos 128MB de RAM, HDs de generosos 20GB, com drives de disquetes 3″1/4 de 1,44MB, ZIP drive de 8MB e leitor de CD com capacidade de gravação! Tecnologias emergentes como celulares do tamanho de um paralelepípedo, com quase o mesmo peso, movido à baterias de cádmio (em dois tamanhos, um fino para leveza e um grande para durabilidade de até 12h para uso diário) e presos em capas de couro nos cintos dos adultos. Devo acrescentar, que esse modelo “emergente”, já entrava na era de obsolecência à época que meu pai o adquiriu. Mas mesmo assim, nos idos de 1999, ainda era um imenso diferencial.

Meu contato com computadores se deu desde muito cedo, acho que meu pai sempre teve pelo menos um de trabalho e um segundo multi-uso (diversão, testes, reparos, me deixar jogar Crayola,…), então também desde cedo, eu aprendi como usar esse ápice da informação, gradualmente sendo requerido por pessoas próximas para ajudá-las em algum problema com a máquina. Vulgo, minha mãe. Mas ei, com isso não digo que minha mãe é uma leiga em uso dessas máquinas, e nem com isso digo que sou um exímio programador e conhecedor das entranhas de uma placa-mãe. Na verdade ela sabe mais que muitas mães por aí. Faz seu caminho perfeitamente nos usos dos programas que necessita usar como Corel Draw, Photoshop, excelente uso do pacote Office de uma certa empresa, só que, como em muitas coisas da vida que acontecem com todos nós, ela não tem particular interesse em fuçar e descobrir coisas corriqueiras da máquina sozinha. Não, esse sempre foi meu trabalho. E naquela máxima budista, “trabalhe em algo que goste, e não trabalhará um dia sequer em sua vida.” Então em toda minha vida, eu nunca “trabalhei” com computadores. Nem quero, na verdade.

Tenho uma imensa curiosidade no tratante à tecnologias, descobrir coisas novas e aperfeiçoar algum conhecimento velho, seja no meu velho notebook, seja no novíssimo smartphone coreano de peças chinesas. Mas descobri recentemente, ao longo dos últimos anos, que se eu tivesse de trabalhar-trabalhar com essas máquinas, eu endoidaria. Transformar um hobby absolutamente passivo, cultivado ao longo de uma pequena vida, em trabalho-trabalho seria como descobrir que Papai Noel é pago pelas companhias de brinquedo para entregar seus produtos, e que não o faz pela bondade e magia do natal. Eu sei, exemplo forte, mas passei a idéia.

O meu ponto é, eu sempre tive contato com tecnologias e a minha geração em particular nasceu e cresce em um momento de intensas mudanças nesse campo. Se você plotar um gráfico da evolução da informática, verá uma curva exponencial, começando  em 1940 ou antes, quase como um gráfico linear e começando a curvar “para cima” próximo de 1990~2000. Foi aqui que eu nasci, no período onde já existia tecnologias da informação bem estabelecidas com certas mudanças e avanços, mas também onde passaram a ocorrer muitas “viradas de jogo”, mudando a cara do mundo cada vez mais rápido. Logo em seguida, após a virada do decênio de 90, do século de 900 e do milênio de 1000, todos para os 2000, veio cada vez mais o mundo que conhecemos. Popularização de equipamentos, miniaturização dos mesmos e potencialização dos ditos. Essa progressão absurda não é surpresa, foi imaginada pelos primeiros grandes acadêmicos do campo, como Alan Moore. A Lei de Moore já previa essa progressão exponencial absurda, baseado na premissa que todo ano as indústrias arranjam um jeito de dobrar a quantidade de transistores em cada processador de computador. A lei previa uma progressão linear que se manteve até esse ano, quando a parada começou a de fato se tornar exponencial. O resultado é que no ano de 2012, uma em cada 5 casas do mundo já possuem algum tipo de computador (desktop ou notebook), e que, em uma estimativa bem chutada por experiência diária, existem cerca de 3 celulares para cada habitante do mundo. E mesmo que nem todos os habitanes do mundo  reclamem seus 3 celulares “por direito”, eles estão lá, e muitas pessoas os reclamaram e os tem em posse. Um no bolso, um na mochila e um na mão falando, porque ele tem bônus naquela operadora.

Esses são exemplos bem cotidianos que representam um cenário de evolução tecnológica muito maior. Nos últimos 60 anos a humanidade já tirou pessoas das garras da gravidade terrestre e os levou a outros mundos, descobrimos soluções para doenças que por centenas de anos foram fatais, criamos uma rede de mapeamento global chamada GPS (baseado no fato de que a luz é a coisa mais rápida do universo e sua velociade é constante, agradeça a Einstein), criamos laboratórios orbitais chamados Estações Espaciais, enviamos câmeras pro espaço infinito do universo em busca de respostas. E tudo isso só se tratando de revoluções que hoje são antigas. Todo dia universidades do mundo divulgam cada vez mais inovações, desde carros que dirigem sozinhos até criações de organismos vivos em laboratório a partir do zero. Hoje, muitos sonhos de antigos seriados de ficção científica se tornam realidade. A tecnologia sempre foi presente nessas histórias, com carros flutuantes, computadores imensos de alto desempenho, comunicadores sem fio e teletransporte sendo sempre o ápice da imaginação humana. E hoje, todos esses sonhos impossíveis impulsionam as crianças de ontem a realizarem essas fantasias para as crianças de amanhã. Os cientistas hoje foram  crianças que cresceram pensando “É uma droga que não existam carros que voem e dinossauros estejam extintos. Vou dar um jeito nisso.” E hoje nós temos em nossos bolsos celulares com mais poder de processamento lógico do que os centros de comando que colocaram pessoas (e alguns animais louváveis) para fora do planeta. E as crianças de hoje vão crescer para criar máquinas de invasão de mentes, armaduras multi-tarefas, transmissão de consciência para outros corpos e a restruturação de naus de madeira como um estilo de vida pirata de respeito (porque nem só de engenheiros se refaz uma revolução cultural).

Admita, colocando tudo em perspectiva, você vive numa regalia de maravilhas e magia movida à eletricidade e bits. Logo viveremos a revolução quântica definitivamente, colocando o seu novo aparelho que vaza luz, em um museu de arte como peça histórica. “Isso é tão dois meses atrás. Mas é bonito mesmo assim.”, dirão.

E com tudo isso em perspectiva, o mundo e suas maravilhas (sem entrar em nenhum debate sobre até onde as coisas são realmente boas e onde elas passam a ser ruins) e todo meu histórico de nascença acompanhando isso, eu ainda me sinto assustado. Eu me assusto com essa visão geral, mas não no sentido se ser algo que me faria mal (mesmo fazendo em muitos sentidos), mas por que é assombroso o tamanho e a proporção da coisa. Quando eu lembro dos meus 13 anos, quando eu não entendia a incapacidade de algumas pessoas mais velhas em não  compreender aquela máquina tão simples com a qual eu sempre convivi, eu sinto hoje que daqui alguns anos eu as entenderei plenamente. O ser humano de uma maneira simplista é resistente à mudanças. E eu particularmente, sou um ser humano com muita relutância às mudanças, principalmente quando elas acontecem sem eu me preparar. Mas eu acredito que consigo lidar com as coisas muito bem, pelo menos por enquanto. Hoje em dia nós temos os avós que não compreendem o wi-fi e amanhã, teremos os pais e tios que não entenderão os aceleradores de partículas feitos em casa e os átomos criados para feiras de ciências nos colégios.

Bem, eu sinto que serei um energumero saudosista mais cedo do que os meus pais jamais sonharam em ser, por que eu abomino os smartphones. Eu repudio os tablets-pcs, os netbooks e qualquer coisa que tenha um touch-screen exclusivo. Eu gosto mesmo é de um bom teclado qwerty para digitar, uma caneta de tinta para fazer anotações em papel, um livro de capa grossa para ler e me proteger de balas e flechas. Um celular básico com um tocador de música decentes me satisfaz. E eu não consigo deixar de olhar tecnologias ditas obsoletas e admirá-las. Eu adoro um muscle car da década de 1960, uma bela moto estilo chopper. Me dê um fósforo, mas não me dê uma caneta com lanterna feito na china. Meu carro tem que ter câmbio manual, no máximo uma direção hidráulica (porque honestamente, ninguém merece fazer uma curva na marra). Um rádio com tocador mp3 me satisfaz, não preciso de um navegador GPS no painel e meus amigos não devem ficar assistindo DVD enquanto eu dirijo. Viajar de avião sempre será uma experiência luxuosa, não importa o quão apertado as companhias me coloquem nas poltronas, sempre estarei mais folgado do que no ônibus da minha cidade.  Eu não consigo nem mesmo atender uma ligação e conversar pelo fone de ouvido do celular. Isso é simplesmente impossível, a sensação de estar falando sozinho e ouvir vozes respondendo que ninguém mais ouve. É quase doença mental, mas isso é comigo.

Sim, meu notebook é mais moderno que qualquer computador que tive antes dele, mas hoje ele é uma antiguidade que resiste ao tempo. Quatro anos já não é mais jovem como costumava ser. O meu foi ultrapassado pela modernidade no momento em que saiu da linha de produção para a caixa. Esse é o ponto de civilização a que chegamos. Qual a graça de se ter uma bicicleta elétrica ou um skate com controle remoto? Não basta que você tenha um carro para ir em centros comerciais com ambiente “climatizado” para você não suar, com escadas que te poupam o ato de subir escadas? Do que te adianta a vida trocar de celular por que o novo faz cerca de 500 mil cálculos a mais por segundo? Você sequer sabe pra que serão esses cálculos? Para abrir seu mural de amigos cerca de 0.3% mais rápido? Você sai com seus amigos e fica checando email numa telinha menor que a palma da sua mão ao invés de se divertir com a realidade, que não é limitada por tela nenhuma? Talvez o quê você goste não seja inovação informativa, mas sim de limitações da realidade. Pegue sua bike, descubra sua cidade. Se perca, se ache, leve um amigo. A internet vai continuar lá quando você chegar em casa. E, se o Sol permitir, ficará lá para sempre. E acredite, o tempo todo haverá pelo menos 100 mil pessoas trabalhando do outro lado do mundo para que você possa aproveitar agora e trabalhar pela manhã. Por que eu acredito que é disso que se trata a globalização, esse revezamento de mentes ativas. Uma hora você dorme e eles trabalham, depois troca.

Eu recentemente comprei um bloco de notas que carrego no bolso e uma caneta que penduro no pescoço. Algo que já queria fazer há muito tempo, mas nunca tomei a iniciativa por diversos motivos, um deles é que sempre me pareceu uma solução muito, digamos, primitiva para o meu problema: esquecer das coisas 5 minutos depois de pensá-las. Eu deveria mesmo é ter um tablet em que pudesse anotar as informações e rápidamente enviá-las via rede telefônica sem fio para meu email, meu mural, meu site de anotações e manter um rascunho no meu blog. Tudo isso manteria a informação a salvo e anotada em vários lugares de fácil acesso para que eu retomasse o raciocínio. Mas a bateria iria acabar antes do fim do dia, e se eu quiser anotar mais coisas? E além disso, eu não entro em todas as minhas contas virtuais todos os dias. Na verdade, eu nem lembro minhas senhas de acesso, guardo-as salvas na memória do meu notebook, fiel companheiro. E se isso falhar também, posso usar o sistema de recuperação de senhas do site, mas isso me da dor de cabeça. Clica em link, responde pergunta, preenche captchas, erra captchas, excede limite de tentativas, só consigo recuperar a senha no dia seguinte. Argh. O papel não liga nem desliga. Se a tinta da caneta acaba é o meu maior problema. Mas felizmente, lápis se acha na rua, enquanto tomadas ficam confinadas em prédios. Meu bloco de notas custou R$11, o que eu considero uma fortuna em se tratando de um monte de árvore morta junta por uma espiral de metal. Mas é um belo amontoado de folhas, e por mais caro que tenha sido, é infinitamente mais barato acessível e conveniente do que o último tablet robô de R$2000 (+impostos) que insiste em querer saber todas as minhas informações pessoais. Meu bloco de papel não tem senha, mas é criptografado. Eu chamo de “minha letra”.

“Querida, nós temos um Betamax. Nós somos MELHORES que as pessoas normais.” – Red Foreman

Meu equipamento eletrônico de menor vida útil foi um smartphone. E eu sei que disse que abomino esse equipamento, mas quando ele era meu, eu o amei e usei e abusei. Testei, hackei, rootei, toquei, perdi. Até o momento fatídico (que sinto admitir não, lembro como ocorreu, nem pude me despedir) ele estava funcionando. Enquanto que eu vejo diariamente pessoas que perdem, trocam e compram sem ter quebrado o seu atual, tendo um perfeitamente funcional em sua mão. Pessoas que fazem da vida útil de qualquer equipamento de comunicação de no máximo 10 meses. Pessoas que não podem ver o anúncio do lançamento de um novo equipamento e já fazem pré-compra (aquela compra que se faz quando o produto nem existe ainda), e corre para uma fila para poder adquirí-lo. Para depois de uma semana a companhia anunciar que o desenvolvimento do novo modelo já está em fase de testes. Seja esse equipamento um celular ou um carro, eu me abismo com essas pessoas. Acho que nem meu pai, um eterno technoholic, faria esse tipo de troca se tivesse dinheiro o bastante para tais trocas. Talvez adquirisse os novos modelos, mas daria sempre um bom uso para todos eles e não os manteria engavetados ou jogados em um canto como um pedaço de tecnologia que não funciona mais.

Eu não sei se você se identifica com qualquer passagem desse texto. Mas se sim, não leve nada como pessoal. Isso é um apanhado de idéias sobre mim, vindas de mim, baseados em uma pequena vida de experiências e leituras curiosas. Eu sinto que talvez eu tenha me perdido um pouco da linha de raciocínio no caminho, mas como sempre, eu escrevi isso de um fôlego só. Sim, tem muitas idéias jogadas e misturadas, entre vida pessoal e dados técnicos, mas eu espero que eu tenha conseguido colocar um pouco de perspectiva sobre o mundo em que você vive, ao menos no que se trata sobre “o novo e o melhor” e o que há por trás. Perspectiva, outro ângulo, uma certa distância e aproximação dos fatos. Acho que isso pode mexer um pouco com a cabeça de uma pessoa sã.

~Dias. Pedro.

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