História em andamento. Parte 1: Luzes

Conto longo. Escritura em andamento, podem haver atrasos. Enjoy.

Parte 1 – Luzes

As luzes de “Apertem os cintos” continuavam acesas mas ele só se importava que as luzes de “Por favor, não fume!” continuavam acesas também, o quê pessoalmente, ele considerava um absurdo. Absurdo porque com tanta coisa acontecendo e passando pela sua cabeça, parecia apenas justo que ele pudesse acender seu cigarro. Pelo menos um, só um. As luzes dos corredores continuavam apagadas. Não estava um escuro total, era possível enxergar ao longo da cabine, havia uma luz que ele não sabia bem identificar de onde vinha, além de enxergar vários sinais luminosos de “Apertem os cintos” acima de várias cabeças. Engraçado como ele se importava mais com um aviso luminoso agora do que com o mundo a sua volta, considerando tudo o que de fato estava acontecendo à sua volta.

Estava sonolento ainda, um gosto estranho na boca. Havia acabado de acordar, desconfortavelmente sentado, com dores no pescoço que não sabia muito bem como haviam chegado ali. Olhou em volta, procurando se orientar, mas o mundo girava ainda, então procurou se focar nas coisas que aconteciam. Viu o que acontecia, prestou atenção; e continuava desorientado. Seus headphones continuavam, apesar de tudo, tocando suas músicas, em alto e bom som aliás. The Kooks tocavam “Ooh La” em seus ouvidos sem um ruído sequer do exterior. Lhe diziam que não era bom ouvir música tão alto, mas mesmo depois de quase perder a audição uma vez, não conseguia deixar de ouvir com volume alto.

Mas no momento, só conseguia pensar nas coisas que lhe faziam falta agora.  Sentia falta de espaço para suas pernas e sentia falta de espaço para seus braços, naquelas poltronas ridiculamente econômicas. E no fundo do avião ainda, poltrona 42 A. Sentia falta de não ter uns maços extras de dinheiro para poder ter se acomodado na seção “Executiva”, ou ainda na seção “Premium Platinum” onde, haviam lhe dito um dia, lhe ofereciam bebidas à vontade, poltronas de verdade, reclináveis, até mesmo com aeromoças-barra-modelos que iriam muito além de sua função contratada, além de uma refeição decente e não aquela desculpa de lanche que havia recebido. Uma barra de cereais, um pacote de amendoins, um bombom e dois refis de refrigerantes. Qualquer coisa a mais, como uma xícara de café preto, seria cobrada pelo preço de um rim. Sentia falta daquela desculpa de lanche que nem pôde comer. Sentia falta também de vários objetos que considerava poder serem úteis no momento, mas que estavam, afinal, confinadas em sua mala guardada no porão de bagagens. Sentia falta do seu isqueiro que por motivos de segurança, teve de ser esvaziado e guardado na mala, do seu canivete suíço miniatura, também guardado por regras da companhia, todos no bolso direito da sua bagagem. Sentia falta ainda do barbeador elétrico que havia deixado em casa pois nunca gostou realmente de usá-lo. Esquentava demais. Não teria nenhuma aplicação no momento, é verdade. Na verdade, percebeu que nada que ele possuía tinha qualquer serventia agora. Exceto é claro, o seu maravilhoso headphone que agora tocava um clássico “Highway to Hell”.

Olhou para sua vizinha de poltrona, que não surpreendentemente, estava histérica. Se lembrava dela quando estavam em terra ainda, no aeroporto. Havia chamado sua atenção não por sua aparência, que não era nada mal, mas sim por sua cara de ansiedade e toda aquela cena usual de pessoas que não são muito afeitas de voar. Batendo pés incessantemente no saguão de espera, beliscando a ponta das unhas e outros sinais de ansiedade. Era uma bela mulher, e parecia mais jovem do que devia de fato ser. Tentou pensar em algo para dizer, mas nada lhe veio à mente, e provavelmente nada se encaixasse na situação. Olhou então para a janela, que havia sido sua pequena conquista nessa viagem. Tudo era mini naquela parte do avião: as poltronas, os espaços, as refeições, as janelas. Se lembrou de algo engraçado, as mini-companhias. A dele estava nesse momento, incapaz de se comunicar. Felizmente, a vista não era mini. Daquele minúsculo retângulo que separava ele das nuvens, podia ver centenas de milhares de estrelas. O céu é lindo visto daquela altitude, com nenhuma iluminação de cidade alguma em milhares de quilômetros em volta, mesmo com aquelas nuvens negras logo abaixo. Clarões eram visíveis nas densas nuvens, e mesmo aquela tempestade adicionava beleza ao quadro. Era realmente algo belo de se ver e todos deveriam ter suas chances de vislumbrar cenas como aquela. Sentia falta de sua câmera agora para registrar isso.

Voltou a olhar para sua companheira desconhecida, e seu rosto continuava impassível. Estático, com olhos esbugalhados, cabeça inclinada para cima, narinas dilatadas e dentes cerrados. Clássico. Suas mãos realmente pareciam que iam arrancar os apoios de braço. Aquela luz indefinida iluminava só um lado de seu rosto, tornando seu rosto ainda mais pavoroso junto com a expressão de desespero dela. De onde vinha aquela luz? Olhando para o lado direito da cabine, entre os passageiros em pânico em todos as fileiras de poltronas, tentou achar a fonte de luz, agora que sua cabeça doía menos. Entre aeromoças de saia justa correndo e tropeçando e rostos sentados que pareciam desesperados, vislumbrou então a fonte de luz. De repente a cabine inteira se remexeu com uma forte turbulência, as bagagens dos compartimentos foram espalhadas pelo chão; as luzes da cabine piscaram freneticamente por alguns segundos e ele bateu sua cabeça na janela e descobriu, enfim, de onde havia vindo a dor anterior.

Seus headphones tocavam agora “L.A. Woman”, em uma versão remixada de Paul Oakenfeld da clássica de The Doors. Parecia apropriado de alguma maneira, pensou. Afinal de contas, o avião estava pegando fogo.

Semana que vem,  Parte 2: Sonhos.

Dias. Pedro

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Comments
3 Responses to “História em andamento. Parte 1: Luzes”
  1. Juno Sena disse:

    Aew carinha !
    muito bom, quero mais !!

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