História em andamento. Parte 2: Sonhos

Parte 1 – https://noaereo.wordpress.com/2012/12/21/historia-em-andamento-parte-1-luzes/

Parte 2 – Sonhos

Então era isso, pelas janelas do lado direito da cabine era possível vislumbrar as chamas vindas das turbinas 3 e 4. Era daí que vinha o clarão que iluminava o interior da cabine escura do avião. Da asa direita saía uma imensa nuvem de fumaça, que cobria as janelas do fundo do avião de tal maneira que somente as janelas do meio para a frente da aeronave recebiam luz. Nada disso parecia lhe incomodar. Por detrás de seu headphone, nenhum som exterior chegava a ele e a única coisa que passava pela sua mente era como seria bom estar em Venice Beach na Califórnia ou outro lugar excêntrico do tipo, tornando toda aquela experiência visual em irreal.

Uma vivência total se faz de luz, som, toques, gostos e cheiros, e desses cinco requisitos, só um lhe transmitia a sensação de algo fora do comum. Bem, dois, se considerar os solavancos da aeronave, mas turbulências são normais em longos voos transatlânticos, então isso não parecia se somar diretamente com o que enxergava. Sentia o aperto da poltrona econômica, o gosto na boca de quem acabou de acordar, o cheiro do ar pressurizado da cabine e o som dos Red Hot Chilli Peppers. Nada disso se relacionava de maneira a lhe convencer que deveria entrar em pânico. Entrar em pânico nunca é algo bom, não ajuda em nada. Havia lido isso em um livro.

O avião não parecia estar caindo, não sentia nenhum tipo de força o empurrando contra o teto, então não devia mesmo ser tão grave assim.

Bem, mas agora ele enfrentava um problema. Visto que a única coisa que separava sua calma de um descontrole urinário era a falta de convicção dele em seus sentidos, estava agora com um dilema. Poderia continuar como estava, em seu mundo isolado onde somente o som relaxante de Skatebard existia, ou aceitar o que sua razão já tinha como verdadeiro: que não era hora de ficar sentado com cara de taxo. Por outro lado, de que lhe adiantaria abandonar esse isolamento? Entrar conscientemente em um ambiente de caos e perigo não seria uma loucura maior do que fingir que o perigo não existia? Afinal, o que poderia fazer em sua posição? Sentado no fundo do avião, entre as últimas poltronas, de cinto afivelado e com pessoas ao seu lado impedindo que alcançasse o corredor. Além do que, o próprio corredor estava atolado de bagagens e com um carrinho de lanches que havia se soltado e tombado mais à frente, próximo do que poderiam ser as poltronas 30. Não só isso, mas havia a insegurança de não ter como prever como seu cérebro reagiria nesse ambiente. Poderia sair da calma racional para o pânico inconsequente, e essa perspectiva não lhe agradava muito. E pelo parecer do ambiente, ninguém estaria muito disposto a conversar com ele. Hum…

Estava se sentindo entediado e isso tornou a decisão mais fácil. Com seu celular tocando fielmente sua playlist no bolso, desafivelou o cinto de segurança e se pôs em pé em sua poltrona e começou a passar pelos apoios de braço dos seus vizinhos até alcançar o corredor. Foi difícil, já que a mulher do meio estava totalmente grudada no encosto e firmemente tentando arrancar os apoios de braço, teve de forçar com o calcanhar um pouco de espaço para caminhar pelos apoios. O senhor da poltrona do corredor estava totalmente agachado abraçando suas pernas, possivelmente rezando, então chegar ao corredor não foi um malabarismo muito maior. Desviando de uma mochila no chão, ficou em pé e observou um pouco à volta. Ao longo dos corredores percebeu umas pessoas agachadas entre as malas, que possivelmente deviam ser algumas aeromoças que ficaram presas no meio do caminho, quando as malas se soltaram. Era difícil ter certeza à luz de turbinas em chamas. Olhando para o fundo do avião, se pôs a caminho desviando das malas o máximo possível. Alcançando a área dos lavatórios e da equipe de bordo, o avião deu outro solavanco que o jogou para trás e quase escorregou em uma alça de mala. Tentou se apoiar no encosto de uma das poltronas e acabou se segurando na cabeça de um passageiro que estava em posição de impacto, como mostram os folhetos do avião, mas ele não pareceu se importar com alguém se apoiando em sua cabeça. Vai entender.

Caminhou entre as malas e mochilas, entrou no banheiro e procurou em volta. Bem, as luzes não estavam mesmo funcionando. Fechou a porta e sentou no vaso. Incrivelmente, se sentia mais à vontade ali do que no aperto de sua poltrona. Tirou o celular do bolso e tentou examinou o lugar com a luz da tela. Cara, nessa hora se sentiu confuso, por que ao lado do vaso e próximo à pia havia um cinzeiro. Por quê era proibido fumar e ainda assim forneciam um cinzeiro? Bem, não importava muito. Pensou em tapar o detector de fumaça com chiclete ou papel molhado com sabão, mas que se foda. Tirou do bolso seu isqueiro descartável reserva e seu maço de cigarro e acendeu um, afinal, o avião e a tripulação já tinham problemas maiores com que se preocupar. Ao acender, as chamas dançantes do isqueiro iluminaram o lavatório de forma fantasmagórica, quase assustadora. E então, apenas a brasa vermelha era visível.

Recostou na parede curvada e fechou os olhos e procurou aproveitar o melhor do momento. Procurava tirar de sua mente tudo o que acontecia com a aeronave e começou a divagar. No silêncio entre uma música e outra e no escuro, a mente começa a criar imagens e delas começa toda uma linha de pensamento próprio. Começou a lembrar de um sonho que teve uma vez que, como a maior parte dos sonhos, só se lembrava de trechos. Era algo sobre ele caminhar por uns corredores de tetos muito altos e colunas de mármore, algo num misto de igrejas góticas e um fórum parlamentar, e de vez em quando encontrava uns globos flutuantes e brilhantes pelos corredores, com o que pareciam nuvens e uma espécie de atmosfera em volta que traziam o nome “Vênus” associada a eles, pequenos planetas flutuantes. Quando encostava neles, era como se “adquirisse” os globos, como acontece nos videogames. Lembrava que quando encontrou três desses globos, entrou em uma espécie de coma profundo e dormiu por mil anos no mesmo lugar. Parecido com outro sonho seu, lembrou, muito mais antigo, onde havia dormido no sofá da sala de sua casa por exatos 68 anos, e que durante esses anos, pessoas haviam se mudado e desmudado de sua casa. Com ele dormindo lá. Fazia parte do contrato da casa que os inquilinos tomassem conta de seu corpo. Não só isso como também durante esses anos, havia estourado uma guerra e uma bomba havia detonado nos fundos da casa e quando acordou (no sonho), já se haviam passado 20 anos desde a guerra. Acordava no sofá exatamente igual a 68 anos antes e caminhava em direção aos fundos da casa para a examinar a grande cratera criada pela bomba.

BLAM! A porta do banheiro se abriu com força, tirando-o de seu transe com um susto. O primeiro susto desde que havia acordado durante o voo. Na porta havia uma aeromoça com a mão na porta o encarando e cara séria. Tirou o lado do headphone do ouvido direito esperando algum tipo de bronca e pelo ouvido direito ouviu os sons dos passageiros também pela primeira vez desde que acordou. Alguns gritos e choros eram audíveis e não tinha certeza, mas um zumbido indistinto ao fundo parecia ser o som das turbinas que estavam agora sobre grande estresse.

Continuava encarando a aerogirl e sendo encarado de volta. Com uma cara de meia culpa com meia incerteza de que alguém fosse realmente se importar com ele fumando ou não numa hora dessas, com tudo acontecendo e tal, perguntou:

~ Você quer que eu apague então?

– Não. Quero que você chegue pra lá e me dê um.

E semana que vem, Parte 3: L.A. Woman

Dias, Pedro

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