História em andamento. Parte 3: L.A. Woman

Parte 1 – https://noaereo.wordpress.com/2012/12/21/historia-em-andamento-parte-1-luzes/

Parte 2 – https://noaereo.wordpress.com/2012/12/28/historia-em-an…parte-2-sonhos/

Parte 3 – L.A. Woman

~ Então, como você me achou aqui?

O avião continuava sua viagem infernal e dentro do lavatório seguia a calma. Apesar do pouco espaço, ele e a aerogirl haviam manejado bem a ocupação do lugar. Ele havia sentado no chão e permitido que ela se sentasse no vaso, como um pequeno gesto cavalheiresco. Cada um com uma ponta do headphone, compartilhavam do som do Blue Oyster Cult, “Don’t Fear The Reapper”.

– O sinal de fumaça ligou e eu vim verificar se havia alguém fumando aqui porque era bem o que eu precisava.

~ Eu pensei que essa parte do sistema estivesse desligado, junto com outras partes como iluminação geral. Alguma coisa para direcionar a energia para os sistemas principais ou sei lá. – respondeu soprando fumaça.

A aerogirl havia trazido uma lanterna consigo para chegar até o lavabo sem tropeçar nas malas e a usavam agora como uma espécie de “fogueira” de acampamento.

– É, eu não entendo muito da parte elétrica do avião, mas fico muito agradecida por esse detector de fumaça ainda estar funcionando. Esse cigarro era tudo que eu precisava nessa hora, até porque eu não poderia fazer mais nada a não ser entrar em pânico e chorar. E eu prefiro não fazer nenhum dos dois.

~ Você tem um sotaque diferente.

– É, eu fui criada em Los Angeles.

Um solavanco da nave e as luzes piscaram por alguns instantes antes de se apagarem novamente. Os dois prestaram atenção nos sons por alguns instantes e como nada demais acontecesse, voltaram a conversar.

– Mas eu sei que as luzes piscando assim não é normal. Alguma coisa tá errada com a fiação.

~ Bem, pelo menos o avião parece estável. Não estamos caindo e isso pra mim já é bom o bastante. Esse piloto merece respeito.

A lanterna estava dentro da pia, apontada para o teto, iluminando eles indiretamente de tal modo que a fumaça dentro do lavabo ficava perfeitamente visível saindo tanto da bituca quanto quando soprada, formando figuras abstratas que podiam ser enquadradas e vendidas em alguma galeria. Ocorreu à ele que possivelmente alguém já devia ter feito isso.

– Ah sim, ele é realmente um ótimo piloto. Um cuzão em pessoa, mas um ótimo piloto.

~ Quer falar sobre isso?

– Na verdade, não. Você sempre se mete em assuntos pessoais dos outros ou isso é você sendo legal?

~ Eu só estou entediado e procurando algo para fazer. Você é sempre tão gentil assim?

Percebendo o que acabara de falar, a aerogirl abaixou a cabeça. Ao levantar de novo, disse:

– É, sinto muito. Eu só não quero falar disso, ok?

Ficaram alguns instantes em silêncio. Sentada no vaso sanitário, a aerogirl fitava em silêncio o círculo de luz no teto. Do chão, ele tentava alternar entre olhar para as pernas da aerogirl, seus seios e seu rosto, para saber se ela reparara ou não se ele havia olhado para seus seios. “Hey,” – pensava – “se é bonito, tem de ser apreciado”.

– Então, o quê você fazia em Munique? – e quebrou o ritmo do olhar dele.

~ Hã? Bem, eu fui aproveitar um período de recesso, digamos assim. Eu fui para europa na verdade por Portugal. De Lisboa, eu viajei um bocado até, chegar em Munique, e como o dinheiro estava acabando já, resolvi voltar para casa. Aposto que você já visitou muitos lugares com esse trabalho.

– Ah é. Eu adoro viajar e foi por isso que eu resolvi virar comissária de bordo. Nunca me senti em casa em nenhum lugar então eu sempre procurei por lugares novos. Que melhor maneira de fazer isso do que ser PAGA para isso, não? – dizia com um sorriso.

~ Realmente, parece um emprego ideal. Eu não sei se aguentaria trabalhar como você, no entanto. Quero dizer, eu gosto de viajar. Mas acho que prefiro fazer isso de tempo em tempo ao invés de o tempo todo.

– É, tem vantagens e desvantagens, mas eu realmente não sei como explicar muito bem elas.

Tentava não perguntar mais sobre o capitão “cuzão” e o assunto de viagens logo se esgotou, mas algo ainda lhe incomodava. Voltando seus olhos para os dela, recomeçou:

~ Mas então… Eu vi lá da minha poltrona as turbinas pegando fogo e tal…

– Mm-hum.

~ Bem… Só estava curioso para saber. A gente vai morrer?

Ela então virou seu rosto para ele e com uma cara de pesar, olhos semicerrados e um tanto mórbida, respondeu “Sim. Nós vamos morrer.”.

Aquela informação chegara ao seu cérebro mas não parecia ter sido assimilada. Pensou que devia ser ou um grande choque, ou ele deveria ser muito retardado para não surtar com isso. O mais provável é que fosse, sim, muito retardado. E então, como não pudesse mais se segurar, a aerogirl soltou uma gargalhada leve.

– Nah, eu tô brincando com você. O avião tem esquemas de segurança bem rigorosos para incêndios, tanto aqui dentro quanto nas turbinas. A essa hora elas já devem estar apagadas e funcionando. Ouça. – disse e levantando o olhar e um dedo indicador, parou de falar para que prestasse atenção no som. O zumbido das turbinas 1 e 2, que estavam compensando a falta das outras duas, já não zumbia tão alto quanto antes, o quê provavelmente significava que agora todas as 4 estavam funcionando normalmente.

~ Você deve ser muito divertida em funerais, sabia disso?

Ela então apagou sua bituca no cinzeiro, retirou o fone de seu ouvido e o entregou ao dono, e começou a se levantar.

– Ah sim. Você tinha que me ver no memorial do meu avô. Piadas e piadas, a alma da festa, essa era eu. Bem, mas acredito que agora eu deva voltar ao meu trabalho. Aqueles corredores estão uma bagunça com aquelas maletas e alguém, eu, tem de arrumar aquilo.

Ele jogou sua bituca na pia e o mais calmamente e devagar que pode, retirou seu celular do bolso, desligou o player e retirou o seu lado do fone do ouvido. Enrolou o fio e guardou junto com o celular de volta no bolso e então se levantou, ou tentou o melhor que pode no espaço daquele lavatório, ficando assim os dois frente a frente. E por um instante, se entreolharam. Perdido no negro dos olhos dela, na mente dele idéias e pensamentos passavam a mil.

– Obrigada pela fumaça, mas você pode sair agora para eu poder…?

Com um impulso, segurou a aerogirl pelos braços e antes de qualquer coisa ser dita e qualquer tapa ser dado, o avião chacoalhou novamente e violentamente, jogando-os em cima do vaso e abrindo a porta atrás deles. Continuava segurando-a firmemente ainda e em seguida foram jogados de volta para o chão do corredor; ele deitado com uma aerogirl em seu peito.

O comunicador da aeronave começou a funcionar pela primeira vez desde que decolaram, e o que se seguiu foi um misto de chiados e palavras.

”[CHIII]… ssageiros, estamos voando agora [CHIII] dentro de uma tempestade com níveis [CHIII]… furacão. Mantenham-se sentados e obedeçam as instruções de segurança. O … [CHIII]… folhetos nas poltronas à sua frente. Tripulação, preparar… [CHIIIIIII]” click. E o comunicador morreu em silêncio.

~Eu preciso ir. – e se levantou rapidamente, pegou a lanterna da pia e começou a se mover em direção à frente da aeronave, em direção à cabine dos pilotos.

Deitado ainda no chão do banheiro, ele continuava não entrando em pânico. Mas seu corpo não acompanhava sua mente muito bem. Seu coração batia rápido e seu corpo suava. Seu estômago embrulhava, quase enjoava, e sua mente tocava uma música grudenta do The Sweet, tão Funny Funny.

E rapidamente se levantou e seguiu para a frente da aeronave.

Semana que vem, Parte 4:  Cabine

Dias, Pedro

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