Hawking e os Recauchutadores de Buracos Negros de Cuba

Stephen Hawking é uma celebridade com todos os direitos. Gênio, rico e sobreviveu em largo a sentença de morta degenerativa de seu corpo. Autor de bestsellers científicos, inovador no campo da física teórica. Todas esses fatos, é claro, acabam dando a ele (por parte de nós meros mortais) um status de autoridade e o que ele diz é transformado por nossos ouvidos em lei universal.

Então claro que quando Hawking escreveu que “a ausência de horizonte de eventos significa que não existem buracos negros”, houve grande comoção e confusão… por parte da mídia.

O pequeno artigo entitulado Information Preservation and Weather Forecasting for Black Holes, de 2 páginas, que contém a infame frase não é uma leitura simples. Mas eu não preciso ser um astrofísico com doutorado para identificar a seleção de informação e deliberada desinterpretação por alguns meios jornalísticos do que está escrito. Existe um contexto e um complemento que são ignorados pelos recauchutadores de informação.

Enquanto o assunto já foi e voltou, muitos por aí já foram contaminados com o vírus da notícia bombástica. O lado bom é que muitos sites e blogs e cientistas já vieram a esclarecer que houve desinformação e explicam o que realmente se diz no artigo. Mas o estrago está feito: erratas não recebem a mesma atenção, poucos ouvirão falar da correção a não ser que sigam o assunto.

Desinformação não ajuda ninguém – a não ser àquele que desinforma.

A questão é, jornais não possuem o papel de divulgadores de conhecimento, mas sim de fatos. Quem ensina são os livros, os artigos, os debates e o pensamento crítico. Muitas vezes, reportagem com limites de palavras, limites de espaço para impressão ou até mesmo pressões nos bastidores acabam por entregar material editado, que pode ou não, refletir bem a realidade. E cabe ao leitor aprender a discernir o que lê. Isso deixa muito espaço para erros de informação, interpretação, timing…

Outro grande fator da desinformação é a falta de conhecimento do vocabulário de certa área de estudo. Palavras do dia-a-dia não mantém o mesmo significado quando aplicadas em ciências ou em artes, por exemplo. Um debate recorrente é sobre as tais “teorias” e “leis” da ciência, e vale um esclarecimento aqui do AstroPt (que é apenas um de vários que divulgam conhecimento mais acessível).

E os recauchutadores, o que são? Bem, existem as autoridades da informação, grandes jornais e revistas reconhecidos por uma história de trabalho considerada correta e precisa e reconhecida por seus similares. Recauchutadores copiam sem dó das autoridades e podem até dar uma ampliada nas palavras, para ter mais efeito, sabe? Jornais, blogs e autores sensacionalistas que preenchem boa parte do tempo repetindo o que os outros disseram, sem pesquisar muito mais o assunto por eles mesmos. Ou pior, distorcendo contextos.

Nesse caso particular, a revista Nature que escreveu uma matéria com um título equivocado que induz ao erro, foi copiada pelos recauchutadores, que são como aqueles alunos que copiam o trabalho de escola de uma paǵina do Wikipédia e só se dão ao trabalho de rearrumar as palavras ou reescrever tudo em suas próprias palavras, para dar a impressão de que foi ele quem fez o trabalho. Não que Wikipédia seja uma fonte de autoridade, mas você entende a idéia.

E como frequentadores de rede social, podemos observar vários exemplos de notícias recauchutadas, bem fáceis de serem identificadas como as fotos com poucos dizeres que simplificam assuntos muitas vezes complexos demais para serem julgados tão superficialmente. Digamos, citações de Clarice Lispector que ela nunca disse ou os portos de Cuba com incentivos financeiros do Brasil.

IlustraçãoInternetCitaçõesVâniaBlogLN

Nessas horas vemos que política influencia muito na divulgação de informações, também. O site Pragmatismo Político evidencia bem como a informação pode vir noticiada de maneiras diferentes em casos como esse.

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Sátira acima, realidade abaixo.

Eu sei que existe um fluxo de informação grande demais para se acompanhar em detalhes tudo que se diz por aí. Por isso o primeiro passo para uma boa educação autodidata nos tempos de hoje, eu diria que é não aceitar toda nova informação como correta. Leia, mas dê tempo para pensar ou para outras opiniões. E se o assunto é de interesse, acompanhar o desenrolar, pesquisar mais e procurar saber se a informação é coerente. É trabalhoso, mas também é melhor do que engolir sapo e falar merda.

[Up]: O Observatório da Imprensa comenta algo semelhante, que admitidamente, é o mais comum de se ver. A diversificação entre “mancheteiros”, uma família que contém as espécies recauchutadoras, e os “explicadores”.

A principal diferença entre ambas as formas de noticiar é que a primeira é incisiva e rápida. Procura publicar fatos novos com rapidez, o quê leva a artigos sintetizados e superficiais, por vezes com dados e fatos. O segundo é o complemento do primeiro, pega o assunto que já está corrente e explica mais sucinta e detalhadamente o que os fatos e dados significam, com opiniões e abordagens.

~Peu Dias

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