[Som e Sentido] Escolha um elemento sonoro que o represente e justifique

Para minha disciplina de Oficina de Som e Sentido, o primeiro trabalho que fiz foi escolher sons que me definissem e fazer uma montagem de até 3 minutos.

Eu cheguei em Belo Horizonte uma semana depois do início das aulas, então não assisti quando a professora Graziela explicou o que seria o trabalho. De acordo com o Plano de Ensino publicado, eu assumi que o trabalho era escolher um aspecto de mim que eu pudesse tentar traduzir com sons, e foi exatamente o que eu fiz. Afinal, daria perfeitamente para tentar trabalhar um aspecto de mim em uma montagem de 3 minutos, eu não iria falar sobre a minha vida inteira. Imagine minha surpresa quando todos os meus colegas começaram a falar de suas vidas inteiras.

Diferentemente, eu foquei em um aspecto que eu considero importante em mim: uma busca por algo que se pode chamar de “paz interna”

Eu sugiro que ouça isso enquanto lê.

Nasci em São Paulo, capital, onde morei até os sete anos de idade, quando minha mãe conseguiu um emprego em outra cidade e minha família se mudou. Morei catorze anos em Aracaju, no estado de Sergipe. Abondonei um curso de Engenharia Elétrica na federal de Sergipe para vir estudar Comunicação Social/Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais.

A minha escolha de graduação veio após longos anos de absolutamente não saber o que querer da minha vida. Eu entrei na minha primeira graduação sem pretensões, o único motivo que me levou à engenharia foi que eu necessitava fazer uma escolha para me inscrever no vestibular, e na época estava estudando o início da matéria de eletricidade em física, que eu estava gostando e achando fácil, então por que não? Tinha eletricidade no curso. O curso não atendeu nenhuma expectativa, e logo no segundo semestre já sabia que não queria continuar, mas levei ainda mais alguns anos pensando sobre o que eu gostaria mesmo de fazer.

Passei ainda muito tempo acreditando que queria estudar na área das ciências exatas, e tentei durante algum tempo fazer transferências para vários cursos, cursando matérias eletivas de Engenharia Mecânica, Física – Bacharelado. E também considerando outras áreas, como ciências da computação, psicologia, farmácia, letras… Em 2012 botei na cabeça que queria  fazer Medicina. O motivo? “Por que não?” era minha resposta. A lógica era buscar algo tão desafiador quanto um curso de engenharia, mas na extremidade oposta de estudo.

Todos que me conhecem me diziam que nenhuma dessas áreas consideradas combinava comigo, principalmente Medicina. Eu também nunca me vi mesmo como médico, mas era a decisão da vez. Não passei em 2012, nem pela USP, nem Unesp, nem Unifesp. Passei ainda seis meses em um cursinho acreditando que iria fazer medicina de novo, mas no meio do ano eu desisti de me enganar e admiti que eu também não queria essa área de biológicas. Muita química para estudar.

Mais uns meses de ponderação e finalmente assumi que eu queria fazer algo mais semelhante à Jornalismo. Além de um certo gosto em escrever e desenhar, muito comum pelo que vejo naqueles que estudam comigo, sempre gostei muito de ler e pesquisar saber sobre várias coisas. Meu interesse nas áreas exatas, biológicas, psicológicas, são todas curiosidades. Minha curiosidade nessas áreas nunca foi forte o bastante para me fazer buscar apenas uma área de conhecimento e Jornalismo se mostrou como um caminho óbvio, onde eu posso de fato apenas seguir meus interesses diversos sem necessariamente ter de focar em apenas um.

E além do mais, como eu vim a confirmar nas aulas, eu tenho muito interesse na “comunicação”, no sentido mais filosófico da coisa. Me intriga saber como a troca de informação [um dos elementos básicos do universo, junto com matéria e energia (que os mais radicais vão apontar como sendo desdobramentos da informação)] é criado, traduzido, transportado, compreendido. Há alguns anos eu assumi uma filosofia, vindo de experiência de vida, que “toda fala é falha”. Isso é visível tanto na minha vida pessoal como na vida social, interpretações dos veículos de informação e as consequências que repercutem.

E então vim à BH. O motivo é menos racional e mais intuitivo. Sabia que queria sair da Aracaju, ninguém deveria passar tanto tempo em um lugar só. Mas também não queria voltar para Sampa, queria algo novo. Pode se dizer que eu tirei uma média do caminho AJU-SP. Mas também, BH é onde começa, para mim, a história de parte da minha família, que sempre ouvi falar e conhecia quase nada da cidade.

Presumivelmente, a música deve ter terminado. A montagem foi feita com quatro músicas intrumentais diferentes, porém muito similares: Ghost Ship in a Storm, de Jim O’Rourke; 07:25, de Mogwai; A Poor Man’s Memory, de Explosions in the Sky; A Blueprint of Something Never Finished, de The Black Keys feat. The Six Parts Seven.

Essas músicas não me lembram momentos expecíficos da minha vida, mas uma sensação boa de paz associada à elas, cada uma em diferentes épocas em que as conheci. Existe uma ressalva: a música Ghost ship in a storm não é instrumental, ela possui letra. Porém, não é da música inteira que eu gosto. A parte que me toca é específicamente a parte intrumental da música que surge no minuto final, quase como uma melodia completamente desligada do início da canção.

A escolha se deve ao fato de que cada uma delas foi capaz de me trazer a um estado de paz desde a primeira vez que ouvi cada uma delas, algo que sempre procuro alcançar. Músicas instrumentais tem o poder de colocar a mente em um estado de contemplação que vai além da intenção do artista, pois basta a mente ouvir e o corpo sentir, sem a necessidade de interpretar uma letra ou história definida, sem necessidade de realmente pensar e sem a interferência de uma voz humana. É algo que naturalmente afeta o indivíduo de maneira única, que cria suas próprias interpretações e emoções e idéias a partir de uma língua abstrata como a música.

É muito comum nós nos identificarmos com músicas que contam uma história que parece com a nossa. É comum ouvir “essa música diz exatamente o que eu sinto ou o que eu estou passando agora na vida”. E isso é bom, mostra por um lado que não somos sozinhos em nossas dificuldades e que se muitos já passaram, podemos passar também. Porém, eu nunca soube, e de fato não sei muito bem até hoje, muita coisa sobre mim. Não sei ainda como funciona minha mente, exatamente como reajo na vida, não sei muitas coisas que as outras pessoas parecem saber, de maneira muito segura, sobre si. E isso me leva à uma “identificação parcial” com as músicas. “Eu penso parecido com essa história, mas não exatamente assim”, “até esse refrão eu entendo o sentimento, mas é um pouco diferente”. E existe outro aspecto mais importante ainda: quando eu ouço música, eu ligo menos para a letra e a história do que eu ligo para a melodia, a batida, a guitarra, o tempo, o passo. Eu me ligo muito mais à parte subjetiva e abstrata. E é essa ligação que me acalma a mente, que aquieta por alguns minutos, a torrente de pensamentos brigando pela prioridade de ser realizada.

E minha inclinação para esse tipo de música intrumental tem uma lógica muito peculiar. Por não estarem atreladas à uma história do artista, sem uma narrativa guiada, músicas como essa se tornam muito mais pessoais para cada pessoa que as escuta, uma interpretação única e pessoal, no sentido mais estrito da definição, surge na vida de cada um, e nunca será igual para ninguém. Músicas intrumentais, sejam sinfonias, eletrônicas, modinha de viola, bossa-nova, sempre vão trazer à tona aspectos únicos de cada um, pois cada um tem uma experiência de vida que é inigualável. É como uma pintura abstrata: o artista tem algo em mente quando cria, mas quem olha, quem escuta, tira suas próprias idéias e visões. E assim, essa melodias significam muito mais para mim como história do que as mais belas e legais canções.

Não significa que seja a única coisa que ouço, minha lista começa nos clássicos do rock e termina lá na moda de viola, com ramificações, loops e recorrências no meio do caminho que passam por diversos estilos. Mas já são outros quinhentos…

Músicas – Links, referências, sugestões.

Vou linkar aqui as músicas individuais que usei na montagem, além de outras músicas que seguem a mesma filosofia para mim, que não entraram na montagem.

Ghost ship in a storm

Mais do álbum Another late Night – Zero 7

7:25

Mais Mogwai

A poor man’s memory

Mais Explosions in The Sky

A blueprint of something never finished

Outras

Existem diversas músicas do mesmo estilo ou que despertam a mesma filosofia de unicidade. Todas elas poderiam ter entrado na montagem. Vou colocar algumas abaixo:

La femme d’argent – Air: essa provavelmente foi a primeira música instrumental que me despertou interesse nesse tipo de música. Ouvi por acaso em um raro momento da vida que a tv estava ligada no canal MTV, e esse videoclipe passou. A versão do disco é ainda melhor.

Versão do álbum:

Buckethead: Velho, Buckethead. Não tem como descrever o trabalho desse cara. Conheci por acaso quando li uma matéria da Revista Rolling Stones sobre o trabalho dele. E lá mencionava artistas que tentaram trabalhar com ele, mas não conseguiam acompanhar o ritmo da mente do cara. Ozzy Osbourne foi citado dizendo “que eu queria trabalhar com ele, mas o cara é muito doido”. Quando Ozzy diz que alguém é muito doido para trabalhar junto, você tem que conhecer o trabalho do cara. Busquei no youtube, foi fissura instantânea. Não dá para não gostar. (não achei a matéria)

Abaixo vão um single, Soothsayer, e o álbum Colma que foi o primeiro que eu escutei. Existem diversos, mas cuidado, porque tem muito experimentalismo em alguns albuns, distorções irritantes, mas vale a pena checar todos.

Riders on the storm – The Doors: The Doors é The Doors. E apesar de Riders on the storm não ser de fato completamente instrumental, o solo de teclado é indispensável em qualquer playlist. A faixa de todos os dias chuvosos. Afinal, The Doors é The Doors.

Mais algumas:

Essas são instrumentais ou parcialmente, mas já seguem um caminho diferente. São muito legais mas não atingem o grau de êxtase das anteriores. Mas isso é comigo, pode muito bem ser diferente para você.

Leaf House – Animal Collective: Animal Collective é uma banda difícil para mim. Leaf House é a primeira música que conheci deles e a que mais gosto. Depois vem My Girls. Porém, tem muita música dessa banda experimental que me incomoda. Mas mais vale ter uma boa (para mim) do que nenhuma.

Man or Astroman: Surf music misturado com ficção científica da metade do século XX. Não tem como ser mais peculiar. Essa banda mistura muitas vezes enxertos de de seriados e filmes de ficção trash nas suas músicas.

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Comments
One Response to “[Som e Sentido] Escolha um elemento sonoro que o represente e justifique”
  1. Liliane Alves disse:

    Filhão, adorei ler esse post, ver como no papel (tela) vc consegue sempre se expressar mais claramente, ainda que seja para demonstrar o quanto de contradições seus pensamentos e sentimentos são permeados. Sempre acreditei no imenso potencial da sua mente curiosa, crítica e, por vezes, confusa. :)
    Estou muito feliz com sua escolha do curso de jornalismo. Acredito (intuitivamente) que esse é o seu caminho, como ja te falei anteriormente. Adoro ler o que vc escreve, Gosto do seu estilo, da clareza de raciocínio e da sua capacidade de sair do lugar-comum. Parabéns querido!!! Te amo!

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