As consequências da ignorância.

“Ignorância é uma bênção” é algo muito confortador em certas situações, quando nem sempre queremos ter total noção de tudo para não perturbar mais a mente. Mas o ditado também têm um problema embutido: informação restrita. O que eu quero dizer é que penso que falta algo na frase, por exemplo, “ignorância é uma benção, quando as consequências não atingirem outros”. Deixe apresentar um estudo de caso.

 

Homem é abordado pela TSA em aeroporto, por causa provável de “carregar bitcoins” na mala.

Davi Barker é um propagador do uso do Bitcoin, a moeda-criptografada criada pelo anônimo japonês (supostamente) Satoshi Nakamoto.

Para essa história fazer sentido, primeiro vale falar sobre a tal “moeda”. Nada muito profundo, por que não sou profissional no assunto, mas é importante saber que é uma moeda virtual, sem nenhuma representação física como cartões ou cédulas. Bitcoins são calculados (minados) por computadores realizando cálculos complexos em busca de um próximo número de um algoritmo (blocos). Todos os computadores mineradores da rede procuram o mesmo bloco, quando um computador mina esse bloco, todos os outros param e passam a calcular o próximo bloco. Quem tem o maior poder de processamento, mina o bloco. Quem mina o bloco, obtém a moeda, um bitcoin, que será anexado na sua chave privativa criptografada, que contém as informações de quanto você tem, baseado em todas as transações que você já fez. Bem, o resto você googla por aí. (Ou aqui)

Então isso torna todo o acontecimento sofrido por Davi um absurdo completo e um pesadelo burocrático de Kafka. De acordo com seu relato, no blog  Daily Anarchist, “gerentes de segurança” da TSA o abordaram após a checagem padrão no aeroporto, procurando saber se “ele carregava bitcoins” em sua mochila. Isso na premissa de que se ele estivesse viajando internacionalmente (que eles perguntaram previamente), ele não seria permitido viajar com mais de $10.000 ($10k, dez mil dólares).

Primeiro, depois de ter sido liberado pela checagem normal, foi abordado mais uma vez sob a suspeita de “terem visto bitcoins” dentro de sua mochila. Davi até pergunta “como elas são?”, e o gerente responde “são como medalhões”. Como o próprio Davi especula, isso provavelmente é um resultado direto de um treinamento mal feito pela TSA aos seus agentes para interceptarem e buscarem usuários de bitcoin, o que por si só já é um fato de preocupação visto que nenhum governo tem direitos ou jurisdição sobre essa moeda.

A segunda causa infundada é que, mesmo que Davi estivesse com mais de $10k em bitcoins acessíveis, não importaria fazer busca alguma, uma vez que o valor não estaria ali para ser apreendido ou intereceptado. O dinheiro está na rede bitcoin, não no celular. A carteira virtual está em um computador, longe, em casa provavelmente. E seus valores podem ser acessados de qualquer lugar do mundo, se ele estiver com um equipamento autenticado, exatamente como acontece com um cartão de crédito. Ou na comparação que ele mesmo faz, seria o mesmo que a companhia de avião impedisse você de viajar com seu perfil do facebook à bordo.

Ok, poderíamos dizer que é um mal entendimento, qual o problema? Bem, não podemos esquecer jamais que quando um governo (particularmente os EUA) pode usar qualquer fato e artifício para construir um caso contra qualquer um, pois possui respaldo legal para tal. O problema nesse caso então, é como uma pessoa como Davi foi investigado de algo que ele não fez, sob suspeitas baseadas em informação incompleta e conhecimento falho. Nessas horas, ignorância é um horror, pois afeta a vida de alguém. Imagine uma cena onde um policial alveja um suspeito por posse de arma ilegal apontada para ele, sob legítima defesa. É uma pistola d’água. É um exagero, mas a linha é essa.

Muitos de nós já tivemos aquele professor de português que nos ensinou a importância de uma boa escrita com pontuação, ao lembrar do famoso (mito?) telegrama de guerra. Um general é perguntado se deve permitir o ataque à uma cidade, ao que ele responde, ditando ao telégrafo, “não, poupe a cidade.” O problema é que a mensagem foi enviada sem a vírgula. Bom, existem versões da estória, mas o resultado final nunca é bom para quem tem a vida dependendo da informação.

 

 O problema da má informação, má comunicação, má interpretação, são comuns. Todos sabem como isso é fácil de ocorrem durante um bate papo online, com vários falando sobre vários tópicos e eventualmente a resposta de um pergunta antiga surge após um assunto diferente. Ou os clássicos problemas da modernidade, o infame autocorrect.

 Bem, são problemas do cotidiano que parecem não ter ligação direta e nem mesmo parecem grandes problemas. Agora. Mas lembre-se que existem muitos ditados válidos por aí, como “quem procura, acha”, mesmo que isso implique procurar, montar, contextualizar, respaldar juridicamente e acusar sob pouco ou nenhum argumento, varia de governo e do nível sociopático de quem você esteja namorando.

Mas mesmo que não chegue a tanto, onde existe suspeita, existe abertura para o erro.

 

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