Cena em uma passarela sobre o rio – madrugada

O ar da madrugada era frio e acordava seus pulmões. O frio tocava sua pele e finalmente resolveu vestir a jaqueta de volta. A lua estava brilhante, acabava de sair de uma cheia: o seu disco prateado parecia amassado, mas o rio abaixo da passarela a refletia inteiramente. Naquela posição em que se encontrava, o astro dos amantes se alinhava com o filete de água canalizada que deveria ser um rio. Ou um esgoto. Depende, eu acho, de quem vê.

 

Ao seu redor, mais pessoas iam chegando e encontrando bons locais para encostar, fumar, debater os eventos finais da noite que acabavam de ter, ou seguravam suas mentes e seus estômagos para sobreviver à suas viagens de volta para casa. Alguns nem mesmo para casa estavam indo, ou pelo menos, não para a que onde seus pertences estavam.

Tirou o celular do bolso para constatar que, sim, era tarde ou cedo demais, e imediatamente se questionar “de novo isso?” Por que esse tipo de pensamento ainda lhe ocorria, mesmo depois de ja ter decidido que não era um problema real que merecesse atenção? Apenas era aquela hora. 4:04h. Nenhuma nova notificação na barra de visão rápida, a não ser as que já estavam ali horas antes. Ok. Já é tarde. Meu dia nem termina de acabar e outro já quer começar novamente, aarrgh – grunhiu em pensamento. Pelo menos, dizia a si mesmo, amanhã era domingo e poderia acordar sem se preocupar.

De novo! Aconteceu de novo. Irrelevante que seja domingo, pois é apenas um dia, outra rotação, ok. Mas por que devo ficar nessa ansiedade de que em apenas mais uma rotação do planeta, devo voltar para o jogo da sobrevivência chamada sociedade? É bem verdade que é uma alternativa melhor do que viver as leis da selva…. Será?

 

 

 

Olhou para o celular novamente. 4:07h

 

Sua mente voltava para a passarela e reparava que a lua se movera: seu alinhamento perfeito com o filete de rio se desfazia e o reflexo direto que atingia seu rosto, dando uma sensação de luminosidade no ambiente, diminuía. Não que ficasse mais escuro, nem nada. Os postes e as luzes daquela cidade mantinham uma luminosidade constante ali na passagem. Apenas ele ficara menos iluminado, já que apesar da passarela cheia de pessoas esperando a abertura dos portões do bate-e-volta se abrirem, nenhum dois estranhos se agrupavam ou ficavam lado a lado. Digo, naquele momento nenhum grupo de estranhos se apresentava, não que necessariamente não houvessem pessoas em duplas, trios ou grupos que haviam se conhecido apenas nas últimas horas daquela noite. Dia. Ainda é sábado?

 

4:08h

4:09h

 

O dígito mudava e os minutos se passaram na tela do celular e reparou que ainda estava segurando seu aparelho na mão, fora dos limites da passarela e acima do largo canal – que indicava ter sido construído para um rio muito mais volumoso – por onde passava aquela linha escura de água onde a luz do sol refletia de segunda mão em seu rosto, poucos minutos antes. Sabia que o celular estava seguro, sentia-o em sua mão, mas por precaução ou reflexo, apertou as bordas do aparelho um pouco mais forte. Afinal, estava ficando gelado. Seu corpo já não estava tão quente quanto quando chegou ali. Sabia – pois já tinha acontecido antes – de já ter relaxado involuntariamente e sem perceber, o suficiente para que o celular escorregasse pelos dedos e não estava muito disposto a testar sua fé em seu próprio controle de corpo naquele momento. Em caso de falha, seu bloco de computação  – seu hub de comunicação – seu celular cairia no canal abaixo. Não acertaria a água, mas pela altura, quais as chances de não se espatifar em mil pedaços? Era verdade que smartphones carregavam a sina de serem inversamente frágeis à sua geração computacional. E suas telas eram o principal atrativo quando ocorriam os encontros com o chão. Mas este em particular vinha com uma tela de resistência física superior. E já havia provado seu valor. Afinal, se não foi ainda  na segunda semana que estava de posse daquele dispositivo e o deixou cair de um apoio, em uma escada de concreto, quina batendo primeiro com a tela em seguida, e havia escapado completamente funcional e com pequenas marcas de guerra que comprovassem a história? Mas mesmo assim, a queda até o canal abaixo era – no mínimo – dez vezes maior, supunha. E o celular já havia levado suas pancadas, diminuindo um pouco sua robustez original. Microfissuras e bolhas de ar. Mas e se mesmo assim por acaso caísse, e se fosse possível ainda sua sobrevivência, como eu poderia buscar ele de volta? – se perguntou.

O canal estava praticamente vazio, então dava para caminhar nele. As paredes pareciam, vistas dali da passarela, baixas o bastante para pular para dentro, mas altas demais para subir de volta. Talvez com um pouco de movimentos de parkour, mas fala sério, fazia anos que não praticava. E nem era super bom quando praticava. Talvez haja uma escada de serviço. Deve ter , tem que ter. Não pode ser inacessível. Talvez seja inacessível apenas para o tipo de pessoa que pensaria em atravessar uma via de 4 faixas para pular a barreira de uma margem de rio sem calçada, para pular uma parede que seguramente deve ter mais de dois metros de altura. Talvez ele tivesse que caminhar muito tempo pelo canal antes de encontrar um bom ponto de saída, se afastando da estação de metrô.

 

4:16h

 

Resolveu guardar o celular de volta no bolso. A passarela não parecia ter ficado muito mais cheia desde a ultima vez que reparou. Talvez todos os boêmios da região que usam o bate-volta já estivessem ali, mas era difícil – impossível – provar. E irrelevante. Aquilo era a noite. O dia dos que farreiam. As histórias que se contam e se omitem.

Nem parecia que acabara de ser chupado numa calçada, não muito longe dali.

Nada mudou.

4:17h

Apenas ele, que carregava mais uma história.

 

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