OO CC NN – Alcool, tabacco, cannabis

Desde criança sempre vi adultos praticarem hábitos que eram exclusivos de gente grande. Dirigir, mexer no fogão, usar telefone, usar tesoura com ponta… Entre esses hábitos, havia algumas coisas que crianças também faziam, como comer e beber, mas com produtos exclusivos. Adultos tinham bebidas que apenas eles podiam consumir, que jamais eram oferecidas às crianças e que poderiam nos colocar, os pequenos, em grandes apuros se fôssemos descobertos provando desses líquidos misteriosos. Eram as bebidas alcoólicas, como os vinhos, whiskeys e em sua grande maioria, cervejas.

Crianças bebiam água, suco, leite e refrigerante e apenas quando crescêssemos poderíamos adicionar essas outras opções à nossa degustação. Enquanto criança, somos curiosos. Perguntamos, xeretamos, mexemos e escapulimos dos olhares das gentes grandes. De minha parte, sei que devo ter feito algum tipo de pressão à respeito do porque crianças não poderiam beber aquelas bebidas adultas. A resposta padrão era que fazia mal para criança e apenas adultos aguentavam consumir as cervejas que amontoavam as mesas de almoço em família e as rodas de conversa no fundo da casa da vó. Tinha também, nos cafés-da-manhã e cafés-da-tarde, o tal café que dava nome para aquelas refeições do dia, um líquido quente, preto e cheiroso que os adultos bebiam ao invés de leite. Eu pedia para experimentar, mas diziam que criança não pode beber café. Era uma coisa que adultos bebiam por que precisavam e que fazia mal para criança. Assim como o leite fazia bem para as crianças, mas fazia mal pros adultos. “Quando a gente cresce a gente não precisa mais beber leite, e pode até dar dor de barriga no adulto. Por isso a gente bebe café.” Mas de vez em quando minha vó dava permissão de dar gole numa xícara super pequena, com um pouco de açúcar. Era gostoso aquilo com açúcar, horrível quando puro.

Devia ter uns quatro ou cinco anos em uma dessas reuniões de família na casa da matriarca avó, uma tradição quase semanal naqueles tempos. Um dia era um churrasco de domingo e, longe dos olhos do resto da família, conversava com meu pai na cozinha da vó, e devia ter feito alguma insistência sobre o porquê de não poder beber a tal cerveja. Até o café que era de adultos já tinha experimentado. A proibição só me deixava curioso. Meu pai se agachou, olhou para os lados e levantou sua latinha de cerveja até o meu rosto e disse “primeiro cheira. o que você acha?” Esquisito, respondi. Não parecia com nada que já tivesse cheirado ou bebido, e olha que já tinha experimentado diversos sabores de sucos, refrigerantes e até o tal café em minha vida. “Você ainda quer experimentar?”, ele me perguntou, e eu respondi que sim. “Tá, mas você vai prometer não falar para ninguém, nem pros seus primos, que você experimentou cerveja. Vai ser nosso segredo de homem, ok?” Sorrindo, disse que sim, e falei sério. Sabia que não podia desobedecer pais, mesmo quando um deles me falava algo separado do outro. Tomei a latinha gelada na mão e dei apenas uma bebericada na borda da lata, nem um gole completo, apenas senti o gosto daquele suco de cevada.

O choque foi instantâneo: o que era aquilo? Que gosto ruim! Porque adultos gostam de beber isso? Eles podem ficar com tudo pra eles, se querem saber. E foi assim que meu pai cessou minha curiosidade por longos anos a seguir. Em apenas uma tacada, meu pequeno cérebro assimilou que, se era coisa de adultos deixe para eles, que eram esquisitos de gostar daquilo em primeiro lugar.

Junto do hábito de consumir bebidas alcoólicas, que já descobrira ser ruim pra diacho, via outro hábito exclusivo de adultos: o hábito de fumar cigarros. Muitas vezes os cigarros eram vistos acompanhando as tardes de conversa com cerveja, mas muitas vezes cigarros eram fumados sem nenhum acompanhamento líquido. Era apenas outra coisa esquisita que adultos faziam, soprar fumaças com cheiro esquisito pela boca e pelas narinas. Era até bonito de ver a fumaça dançando no ar, mas cheirava esquisito. Ruim, até. Porém, tinha uma diferença. Enquanto os álcoois pareciam ser consumidos por todos os tipos de adultos, mesmo que apenas ocasionalmente, os cigarros eram coisas que apenas ALGUNS adultos usavam. Era uma coisa de adulto que não era um requisito, mas uma escolha. Tudo bem que mesmo entre os bebedores, tinha quem bebesse mais que outros, mas o tal cigarro era absoluto: ou você fuma ou não fuma, não existia meio termo. E diferente dos álcoois, que são bebidas, não existia um produto equivalente para crianças. Não existe um consumo fumacento para crianças. Era exclusivo de uso adulto, sem opção mirim.

E assim como antes, a curiosidade me fazia questionar aquele hábito. Em primeiro lugar, o que é cigarro? A resposta parecia ser algo complicado, pois muitos adultos tinham dificuldade em começar a responder e quando o faziam, diziam apenas “ah, é só fumaça.” Então em segundo lugar, qual a graça da fumaça? Tem gosto bom? Alimenta? Mata sede? Faz cócegas? Porque até onde eu sabia, aquilo apenas era bonito de ver e tinha um cheiro meio ruim, então era difícil acreditar que, no mínimo, tivesse um bom gosto. E além do mais, fumaça não faz mal de respirar?

“Sim, faz muito mal. Na verdade, fumar é um hábito muito ruim, que vicia, pode matar e você nunca deve começar, por que senão não tem volta.” Eis que meu cérebro infantil se depara com uma situação muito estranha. Se faz mal, por que fumam? E se sabem disso, por que continuam? Pelo menos quando perguntei da cerveja, ninguém falou nada sobre vício ou morte. E além do mais, adultos deveriam ser pessoas espertas, já que sabiam tantas coisas mais que nós crianças. Algo não fazia sentido ali. Mas a curiosidade da criança tem a força inversa a sua quantidade de atenção. Se os adultos diziam que não era coisa pra criança e nem sabiam responder direito as perguntas, melhor ir brincar.

Meus pais bebiam em ocasiões onde álcool fazia parte. Mas minha mãe era fumante, meu pai não. Minha mãe sempre fumou. Em casa, na rua, no carro. Era apenas assim que adultos fumavam. É verdade que bebia pouco ou menos que meu pai nessas festas e reuniões de adultos, mas o cigarro era todo dia. Não parecia ser algo de festa ou apenas de vez em quando. Era isso que significava o vício que tinham me falado antes. O fumante sempre tem desejo de fumar outro cigarro.

Enquanto ia crescendo, as ideias iam se aprimorando a respeito do mundo, sobre viver no mundo e as escolhas que fazemos e aquelas que somos obrigados a seguir. Já na adolescência, sabia bem que cigarro era proibido para crianças pela mesma razão que o álcool. Fazia mal. Mas o cigarro fazia muito mais mal. Soube que era uma das principais causas de morte no mundo, atrás de acidentes de trânsito – muitos causados por álcool – e problemas cardíacos – muitas vezes agravados pelo tabaco também. O álcool até causa doenças no corpo, mas a pessoa tinha que ser um beberrão, com um hábito de consumo muito maior do que o normal. O cigarro, por outro lado, era tido como um vilão desde o primeiro trago.

Na escola, nas campanhas anti-tabagistas ou em francas conversas, cigarro era reconhecido como um grande causador de câncer, uma doença que causa muito sofrimento na pessoa. E no entanto, para onde eu olhasse havia pessoas fumando. Era ilógico para mim que tantas pessoas persistissem em um hábito que em nenhum lugar tinha uma boa coisa sequer a ser dita sobre ele. Quer dizer, até na própria embalagem de cigarro dizia que o produto continha mais de 4700 substâncias tóxicas ou cancerígenas. Depois de um tempo, vinha até com umas fotos horríveis de gente morta na parte de trás do maço. Mas uma coisa boa se dizia do cigarro. “Você parece mais legal.” Balela, é claro. Mas na verdade, vendo filmes e outros programas de tv, você notava como alguns personagens fumavam e às vezes parecia mesmo legal. E além do mais, a fumaça dançava de um jeito que era, apesar de tudo, muito belo. Mas parecer mais bacana e ter uma fumaça dançando no ar não são boas razões para inalar algo que diz na própria embalagem que vai te matar.

Eis um paradoxo humano. Consumir algo consciente da morte que lhe causa. Eu não queria ficar doente ou morrer, mas queria muito experimentar um cigarro pra saber o que tantas pessoas insistiam em buscar neles. Digo, não podia ser TÃO ruim assim, se as pessoas continuam a fumar, mesmo com todas as informações disponíveis. Alguém tem que estar errado: as informações sobre o cigarro devem estar exageradas ou incorretas, ou todas as pessoas fumantes do mundo são muito bestas. Concordo em tirar a média e dizer que existe muita gente besta no mundo, mas que portanto, como pessoas é que produzem informação, algumas informações sobre o cigarro devem estar incorretas ou exageradas. De todo modo, ninguém jamais me ofereceu um cigarro. Em toda minha adolescência nunca conheci gente da minha idade que tivesse experimentado e parecia cada vez mais que o hábito de fumar era algo que seria extinto com as novas gerações.

Certa vez, já com 17 anos, a curiosidade que foi sendo acumulada dentro de mim durante anos me levou a ter um sonho. No sonho, eu fumava meu primeiro cigarro. Lembro nitidamente da sensação de segurar um cigarro na mão e entre os dedos (como já havia feito em outras ocasiões, manipulando os cigarros de minha mãe). No sonho, havia um acendedor automático, parecido com aqueles que tinha nos carros de todo mundo, mas embutido no chão da calçada. Me agachei com o cigarro na boca, acendi e traguei. E senti no sonho a sensação de fumaça na boca e no pulmão, mesmo sem nunca ter fumado antes. Acordei com a ideia, já que o sonho fora tão nítido, que estava preparado para a coisa real. Não ia ser tão ruim quanto eu esperava.

Um dia, a poucas semanas de completar dezoito anos e me tornar legalmente adulto e no direito de poder dirigir automóveis, consumir álcool e comprar cigarro, resolvi experimentar um cigarro que, como tantas crianças fizeram no mundo, foi roubado do maço de minha mãe. Eu não ia gastar dinheiro em um maço em que viria vinte daqueles trecos, sem saber se eu ia gostar de fato. Guardei o cigarro e esperei ficar sozinho em casa. Fui para fora de casa, pois sabia que fumaça deixava cheiro e poderia me denunciar. Passei um momento apreciando aquele momento, em que sabia que depois minha visão de mundo mudaria radicalmente. Manipulei o cigarro na mão, testei diferentes poses, colocava ele preso entre diferentes dedos, trocava de mão. Cheirava o papel com o fumo dentro e sempre tinha aquele cheiro bacana antes de acender. O papel tinha um cheiro quase doce, o filtro era um algodão macio. O fumo era bem preso e não escorregava nunca pela abertura do papel na ponta que acende. Acendi com um dos isqueiros velhos de uma gaveta que ainda tinha uma pequena chama. Acendi e traguei.

O choque foi instantâneo. Minha boca ficou preenchida com um sabor imensamente ruim, minha garganta secou imediatamente e com um amargor pior que qualquer remédio que eu já tivesse tomado. Tossi e tossi e tossi. Me lembrei do pequeno segredo de homem que prometi a meu pai mais de uma década antes. Nem naquele dia, com as papilas gustativas pueris super afinadas aos gostos doces e averso aos amargos da cerveja, nem naquele dia o gosto foi tão ruim quanto a descoberta do sabor de fumaça de tabaco.

Me recuperei da primeira série de tosses, encarei aquele palitinho aceso entre meus dedos e a fumaça azul que saia e dançava a partir da ponta em brasa. Insisti em mais um trago. O segundo não foi tão horrível, mas ainda era algo muito estranho de se por na boca por vontade própria. Tantas coisas passaram na minha cabeça, questionando o hábito, o produto e as pessoas que eu via fumarem durante toda minha vida. No quinto trago decidi apagar e concluir o experimento. O treco era realmente horrível e era a informação que faltava para saber que o melhor mesmo era não fumar cigarros.

Bem, a história há de confirmar que uma vez fumante, sempre fumante. A curiosidade diminuiu no primeiro momento, mas a lembrança do choque de sabor da fumaça se distanciava, e no fundo da minha mente eu sentia o desejo por tentar de novo. Apesar de saber e lembrar de como havia sido uma experiência ruim, algo dentro de mim me levava a querer mais. Afinal, devia ser que nem com a cerveja: o primeiro gole era sempre ruim, mas depois você se acostuma. Logo na primeira semana de 18 anos completos comprei meu primeiro maço de cigarros, Lucky Strike vermelhos. Ainda era estranho, mas muito menos ruim do que o Free vermelho que havia roubado de minha mãe. Decidi que ruim era o Free, e não os cigarros como um todo. Diferentes marcas, diferentes gostos, diferentes consumos. Passei a gostar.

Ainda naquele ano, pensava sobre o meu hábito adquirido e sobre o segredo que eu devia fazer para que minha mãe não soubesse que eu também era um fumante agora. Pois minha mãe sempre insistiu no fato de que o ato de fumar é um péssimo hábito, que fazia mal e que desejava que eu jamais começasse a fumar, pois sabia o preço que seria cobrado no futuro. Ao mesmo tempo em que ela dizia essas coisas racionalmente, via também que ela jamais parava. Ela justificava que era um vício e que era difícil parar. Que a melhor maneira de parar de fumar era não começar. Parecia conformada com sua sina, mas dizia sempre que eu não deveria começar. Toda vez que eu a questionava sobre porque fumava ou perguntava porque não simplesmente parava de comprar, ou era a mesma resposta ou era um simples me deixa quieta e para de perguntar isso. E de certa forma, eu sentia certa culpa de ter começado a fumar. Mais ainda por ter de fazer em segredo, me escondendo dentro de minha própria casa. E quanto mais eu pensava, mais ficava claro que o segredo tem vida curta, que eventualmente ela sentiria um cheiro ou encontraria algum indício de que o filho fumava. Era uma cidade de médio porte. Podia ser até que nos encontrássemos por acaso na rua e seria ruim que, de qualquer forma que fosse, ela descobrisse de surpresa. Decidi que deveria admitir de uma vez que fumava e tirar aquela complicação do caminho. Seria melhor ouvir de mim e no começo.

Um dia, à noite em casa, enquanto minha mãe assistia televisão resolvi que era uma hora tão boa quanto qualquer outra para falar do assunto. Me aproximei devagar, me agachei para perto dela e disse que eu tinha algo para lhe falar. Não demorou muito para o clima ficar sério. Falei de uma vez: “Mãe, eu já fumei.” A reação imediata dela, enquanto arregalava os olhos e ficava toda reta sentando no sofá foi perguntar, com agressividade “MACONHA?!”

Fiquei até surpreso com a pergunta. “Não, não! Cigarro mesmo.” De alguma maneira, ela ficou mais brava ainda. Eu achei que negar o uso de uma droga ilegal deveria ter diminuído o choque do momento, mas o fato de eu admitir que tinha virado tabagista era uma traição de expectativa tão grande quanto a outra. Eu sei que o que doeu mais nela foi um sentimento de culpa, como se o vício dela fosse a influência definitiva que me levou a começar a fumar. Eu neguei, dizendo que sempre tive curiosidade com o cigarro, não só por ela, mas por conta de toda uma sociedade contraditória que divulgava informação científica sobre os malefícios do tabaco, mas ao mesmo tempo permitia sua comercialização, inclusive se beneficiando grandemente de grandes taxações de imposto sobre o produto. Se era uma escolha, eu fiz a minha de descobrir por experiência. Eu nunca a responsabilizei pelo meu desejo de experimentar o tal tabaco. Mas desde então, a única coisa que ela me pedia era que jamais fumasse na frente dela. Quando falei com meu pai, no fim de semana seguinte, a conversa foi mais amena. Claro que ele não ficou feliz com o fato, por que sabia que era um hábito que não trazia nenhum benefício. Mas que eu era adulto agora e que tinha tomado a decisão baseado em busca de informações e que se era o que eu queria, fazer o quê?

Enfim, sou fumante. Essa história vai e volta, paro e volto. É a sina de todo fumante, de todo viciado na verdade, em qualquer substância. No começo tudo parece certo e gostoso, você se acostuma e às vezes até abusa. Depois de um tempo, você começa a repensar o seu vício. Começa a encher menos a caneca de café preto, escolhe beber menos long necks naquelas saídas com a galera e para de comer barras de chocolate inteiras de uma vez.

Com o cigarro não é diferente. No início, houve aumentos incrementais do consumo da fumaça de nicotina. Comecei fumando um cigarro por semana. Em menos de dois meses, já fumava dia sim, dia não. Depois todo dia um. Depois, dois por dia. Depois três por dia. Depois, foda-se, sou fumante e fumo quando der vontade. E cada vez mais a vontade vinha a toda hora. No intervalo de aula. Na hora de acordar. Junto com o café. Junto com a cerveja. Pra caminhar na rua. Pra passar o tempo. Pra matar o tédio. Pra esperar o ônibus. Pra fazer charme na balada. Pra compartilhar com a gatinha. Pra depois do sexo. Pra acordar. Enfim, um vício. Hoje em dia eu tenho um consumo bem moderado, passando alguns meses até sem comprar um maço. Mas eu sei que não existe ex-fumante. Você pode passar cinquenta anos sem colocar um cigarro na boca, mas se der uma tragada, já é o rótulo de viciado novamente.

Mas algo sempre me intrigou muito. Desde a década de 50, quando as primeiras evidências que cigarro e o hábito de fumar causavam câncer, o cigarro vinha progressivamente a ser encarado como veneno, mas ninguém bebia veneno daqueles de matar inseto. E além do mais, se é algo tão ruim assim, o governo não deveria, além de regular a propaganda, proibir a venda e circulação do produto em todo o território nacional de uma vez? Quer dizer, esse era o argumento que nos era passado para a proibição do consumo de outras substâncias ditas viciantes, as drogas. Digo, drogas ilegais, pois vim a descobrir que o conceito de droga é muito amplo e abrange inclusive o adorado álcool e o confuso tabaco, até o café se caracteriza como droga.

Eu lembro de perguntar pros meus pais quando criança sobre por que algumas farmácias se chamavam drogaria, se era proibido a venda e uso de drogas. Foi quando passei a entender que remédios e drogas são a mesma coisa. São substâncias químicas que, uma vez absorvidas pelo corpo, alteram alguma função do organismo. No caso das bebidas alcoólicas é o próprio etanol que intoxica e deprime o sistema nervoso central. O café tem a cafeína, que estimula o sistema nervoso central, assim como a nicotina do tabaco. O que definia o problema da droga era ela ser legal ou ilegal. E o argumento principal da ilegalidade de certas drogas era fazer mal para o usuário e consequentemente para a sociedade.

Drogas ilegais, sabíamos desde cedo, eram perigosas, viciavam e podiam matar por overdose e por isso eram ilegais. Exceto o tabaco. E o álcool.
Drogas ilegais eram o crack, a cocaína, o ópio, a heroína… Essas diziam que eram ainda mais mortais e viciantes que o cigarro e mesmo nos filmes, nunca tinham um aspecto bom associado a elas. Os usuários dessas drogas sempre começavam procurando alguma coisa que era satisfeita no começo, mas que logo eles precisavam consumir cada vez mais da substância, deteriorando o corpo no caminho e levando a mortes muito prematuras. Essas eu compreendia e sabia perfeitamente a razão de sua proibição. Nunca senti curiosidade por elas, não a ponto de me levar a provar uma vez apenas. Sabia e compreendia, já um tabagista, que não existe isso de provar uma substância viciante apenas uma vez. Mas no rol das drogas ilegais e proibidas, existia outra que atiçava minha curiosidade e meu senso de contradições do mundo. Era a tal da maconha.

A maconha era um outro tipo de cigarro, que diferente do tabaco, não era consumida livremente. Dizia-se que era perigosa e por isso era ilegal. Ou era ilegal por ser perigosa? Quer dizer, qual era o perigo exatamente da maconha? Diziam que era a droga de entrada, que fazia a pessoa se viciar em substâncias ilícitas e que logo um maconheiro começaria inevitavelmente a cheirar cocaína, fumar crack ou injetar heroína. Da cocaína eu via pessoas ficarem agitadas, irritadiças e sangrarem o nariz de tanto cheirar o pó. Do crack, via as imagens de noticiário mostrando pessoas virarem zumbis que viviam em função apenas da próxima pedra. Da heroína, via os retratos e estereótipos em filmes de pessoas de bem que se tornavam pequenos delinquentes em busca de conseguir mais uma dose, tornando-se relapsos e compartilhando agulhas para injetar a droga, e logo necrosarem o lugar do braço onde sempre aplicavam. Pessoas perdiam membros ou viviam tempo o bastante para morrer de overdose ou pelo uso crônico que corroía seus fígados mais rápido que qualquer cirrose.

Mas a maconha, o que ela fazia? Para todo lado que eu procurasse, as informações que abordavam a substância e seus efeitos eram em sua maioria referências de cultura pop, que tratavam maconha como um alívio cômico, onde maconheiros riam de tudo, comiam de tudo e depois dormiam. Quando ficavam sem a droga, não pareciam jamais serem retratados como delinquentes dispostos a saquear a própria casa em troca de nova dose. Apenas seguiam em frente, à espera da próxima oportunidade de fumar outro baseado. Nesse ponto, eram mais inofensivos e saudáveis que os tabagistas, pois nunca pareceu que um maconheiro acenderia um cigarro atrás do outro para satisfazer seu desejo. Apenas um seria o bastante por um longo tempo, e apenas isso já me parecia mais saudável por ter menos inalação de fumaça por tempo. Dizia-se que maconha fazia a cabeça, alterava a percepção do mundo, atiçava os sentidos, abria as “portas da percepção”. Sabia, claro, que o tráfico ilegal movia todo um sistema criminal, no qual o comércio da maconha fazia parte. Mas do ponto de vista saúde, nada nunca pareceu justificar sua proibição. Se muito, parecia que deveria ser permitida no lugar do tabaco, o que já tiraria o produto do mercado ilegal e por consequência, do circuito criminal.

Mas havia um porém. Diferente do tabaco, que também tem uma tradição de consumo milenar e apenas no século XX foram feitas pesquisas científicas sobre o seu impacto na saúde humana, a maconha não tinha a mesma base científica. A comunidade científica possuía poucas informações a respeito da planta e as evidências sobre seu consumo eram na maioria anedóticas; ou seja, relatos de quem usava ou de quem convivia com usuários. A pesquisa era proibida por que a substância era proibida. E quem falasse em legalizar, recebia como resposta que não se podia legalizar sem evidências científicas sobre o que de fato acontece no corpo. Evidências que eram impossibilitadas de existir por ser substância proibida. Um contrassenso.

Outro aspecto estranho era o fato de ver constantemente histórias de grandes celebridades, artistas, pintores, músicos e afins que eram sabidos usuários de drogas, mas que nunca se metiam com problemas com a lei, que não eram presos pela polícia mesmo quando o mundo inteiro sabia que ele fazia uso de drogas ilegais. Se era proibido, por que só celebridades podiam usar sem medo?

Nesse ponto, me vi em um beco. Não podia simplesmente satisfazer minha curiosidade, por que não podia simplesmente ir na padaria comprar para experimentar. Era algo ilegal e eu não tinha a menor intenção de quebrar a lei. A princípio. Mas além disso, não conhecia ninguém que usasse ou soubesse onde conseguir a tal da maconha. Eu não sabia a aparência, exceto pelo formato distinto das folhas. Mas ninguém fuma folhas, e sim um produto tratado e triturado (exceto em charutos em que folhas de tabaco são enroladas inteiras para fazer o produto). Eu não sabia o cheiro. Entre as referências pop, dizia-se dos trouxas que compravam orégano achando que tinham conseguido um pouco de fumo. E além do mais, não tinha muita informação disponível. Podia ser ou não que maconha fizesse realmente mal. Alguns diziam que destruía neurônios, outros que curava câncer.

Uma vez, na festa de casamento de um primo, eu tinha 16 anos, outro primo também mais velho me chamou de lado para conversar “sério”. Meio em segredo, em voz baixa, simplesmente perguntou se eu “já tinha experimentado?” Depois de dizer que não, ele passou a relatar a sua experiência, na esperança de me dissuadir de experimentar maconha na vida. Disse que a primeira vez que fumou foi com uns amigos que já usavam. Ele disse sobre como ele se sentiu mal, como começou a ficar paranoico e que certa hora ele ficou tão assustado que acabou se recolhendo prum canto da sala segurando uma lata de desodorante aerossol e um isqueiro na mão, ameaçando queimar qualquer um que tentasse se aproximar dele. Depois disso jurou pra ele mesmo que nunca mais iria fumar maconha, não importasse o quê. Devo dizer que achei a história impressionante, mas não fiquei muito impressionado. Já ouvia falar que afetava pessoas diferentes de formas diferentes.

No fim, a informação que teve mais peso na minha decisão de experimentar de fato, na jovem idade de 21 anos, era a informação de que ninguém morre por maconha. Que é impossível ter overdose. Que na história da humanidade não se tinha registro de alguém que tivesse morrido por uso de maconha. Essa é uma declaração muito poderosa e até difícil de acreditar. Mas depois de tantos anos vendo tabelas que mostravam o número de mortes por ano no mundo causadas por álcool, tabaco, colesterol e tantas outras substâncias, inclusive por drogas legais como remédios de balcão ou prescritos por médicos para dormir ou antidepressivos, nunca vi uma tabela com mortos por maconha. Nem as notícias mais sensacionalistas mencionavam morte pela droga, apesar das inúmeras que falavam de apreensões policiais da substância, colocadas ao lado de pacotes de cocaína. Enfim, estava convencido de que algo faltava naquele diálogo sobre a maconha. O que o governo dizia e o que a sociedade repetia não coincidia com outras percepções. Mas então, como experimentar?

Um dia conheci uma garota no meu grupo de estudos de astronomia. O grupo de astronomia envolvia pessoas com vários backgrounds de vida e de diferentes formações acadêmicas. Alguns nem tinham formação acadêmica. Era um grupo de pessoas unidas por um interesse, o universo. E de vez em quando, cerveja. Eu era um jovem graduando de engenharia elétrica que já não sabia se continuaria o curso até o fim. Ela era uma mestra em sociologia que logo começaria o doutorado. Entre todos os nossos amigos do grupo, nós éramos os únicos tabagistas. Um dia, enquanto a gente conversava fumando saindo de uma das reuniões do grupo, ela me perguntou se eu fumava maconha também. Eu lembro de ficar por uma fração de segundo assustado, do tipo “eu pareço alguém que fuma maconha?” Eu respondi que não, mas que não julgava mal ninguém que fumasse, só pelo fato de fumar.

Eu perguntei para ela, admitindo que nunca tinha sequer conhecido alguém que fumava maconha antes, porque ela fumava. E a resposta dela ressoava com o que eu via em filmes, séries e outras formas de cultura que não estavam atreladas ao governo, à imprensa ou a polícia. De que ela usava pra se sentir bem. O que em si já era uma resposta melhor do que os adultos da minha família puderam me dar na minha infância para usarem tabaco. Não era só fumaça, mas uma fumaça que fazia a pessoa se sentir bem. “Mas e sobre os estereótipos do maconheiro? Não destrói o cérebro? Não deixa você lesado irreparavelmente? Você realmente fica rindo de tudo por que tudo fica engraçado ou porque deixa a gente retardado? É verdade que você começa a ver coisas?” eu perguntei, não de uma só vez.

“É”, ela disse, “a maconha realmente corresponde um pouco com os estereótipos. Mas claro, não exatamente. Realmente, a gente fica um pouco mais alegre e às vezes acaba rindo de coisas que antes pareciam não ter graça. A gente fica com fome e come muito e às vezes com misturas esquisitas. Mas nada disso é irreparável. O efeito passa e depois de uma hora mais ou menos a gente volta ao normal. Mas esses efeitos que são descritos são apenas consequências de um fenômeno maior que acontece com o corpo. É uma sensação que não dá pra descrever pra fazer outra pessoa entender. Como a maioria das coisas, só dá pra saber quem experimenta. Mas tem muito estereótipo que inventa coisas. Por exemplo, eu não conheço ninguém que tenha tido alucinação visual de ficar vendo objetos virtuais dançando na frente dela.” E os outros do grupo, tem mais gente que usa? “Não. A maioria ali não se importa também de alguém usar maconha, mas ninguém ali usa ou sequer experimentou.” Ficamos em um breve silêncio. Ela deve ter notado o interesse que eu demonstrava no assunto e perguntou “Você quer experimentar?”

Fiquei em dúvida, por que nunca tinha sequer tido a oportunidade antes e de repente alguém me perguntava se eu queria. Respondi que não, talvez rápido demais. “Tranquilo. Eu também só ofereci por que eu te conheço e sei que você é de boa e acho que ia curtir. Mas não se sinta pressionado. O pior tipo de maconheiro é aquele que fica forçando os amigos que não usam a experimentar, como se isso fosse fazer delas pessoas melhores. Tem gente que faz exatamente aquilo que a gente mais odeia que façam com a gente, que é julgar a pessoa por usar ou não. É uma escolha do indivíduo, não uma obrigação.” Mas e a ilegalidade da coisa? “Esse é o maior problema, porque a gente acaba obrigado a comprar um produto sem controle de qualidade e que financia o crime organizado. Eu não compro em boca de fumo, mas não significa que não veio do mesmo lugar. Se eu pudesse, eu plantava. Mas eu fico com medo da polícia e de ser presa por isso, então por ora é mais seguro comprar dessas pessoas.”

Nós chegamos no ponto da caminhada onde ela ia pra casa e eu ia pro ponto de ônibus. Apagamos as bitucas de cigarro, despedimos e voltei para casa conhecendo pela primeira vez uma usuária de maconha. Uma pessoa funcional, com titulação acadêmica e que não parecia um ser criminoso, exceto pelo fato de comprar um produto ilegal nas mãos de pessoas que operam fora da lei. Diferente da ideia que até os filmes passavam de que maconheiros são sempre pessoas lesadas e sem ambições ou sem contribuírem para a sociedade.

A curiosidade de experimentar voltou a crescer, principalmente depois de recusar a primeira oportunidade que surgiu. Umas semanas depois, saindo da reunião de tarde do grupo de astronomia, eu decidi que ia pedir para ela, que queria experimentar. Era alguém que eu podia confiar, que eu conhecia. Eu tava de carro e depois de perguntar, meio sem jeito, se eu podia experimentar com ela da próxima vez que ela fosse fumar, ela me convidou para ir pro apartamento dela. “Claro! Eu fico até honrada de você pedir isso pra mim. Nunca tinha introduzido ninguém no ‘mundo canábico’, por assim dizer. E eu defendo que a primeira vez é muito importante e deve ser feita corretamente. Conheço muita gente que diz que não gosta por que teve uma primeira experiência ruim ou porque depois de juntar coragem pra experimentar não sentiu nada. Tem muito fumante que acha que fumar um baseado de maconha é igual a fumar um cigarro, mas é um processo diferente. E também é importante fazer isso num lugar seguro, com gente que conhece. A pior experiência deve ser experimentar de algum estranho, fora de casa. Por que a primeira vez é bem mais forte do que quando você está acostumado. Fumar pela primeira vez em um lugar desconhecido e sem conhecidos por perto pode acabar com toda a alegria. É uma linha muito fina entre o prazer e a bad trip, e se você sentir uma bad pode acabar traumatizado ou achar que isso não é pra você. Eu defendo que todo mundo pode se beneficiar da maconha, mas tem que ser uma escolha e tem que ser feita do jeito certo. Quando a gente chegar lá eu te explico melhor.” Eu perguntei se ela tinha alguma coisa pra comer no apartamento dela, por que já ouvira falar tanto da larica. E acabamos indo no mercado primeiro, por que ela não tinha nada que não fosse ingredientes. Compramos um refrigerante e uns dois salgadinhos. Subimos pro apartamento.

A colega de quarto dela estava lá, estudando na sala. Fomos direto pro quarto. “A sua amiga também fuma?” eu perguntei. “Não. Ela não gosta, mas ela não se incomoda com quem usa. Não precisa se preocupar com ela”. O quarto dela era pequeno. Tinha duas estantes com vários livros, alguns de sociologia, outros de filosofia, um do Carl Sagan. Tinha uns posters de filme nas paredes e uma baguncinha espalhada no chão e na cama. Ela ligou o notebook e colocou música. Pink Floyd. Eu esperava sentado na cama enquanto ela preparava um baseado na mesa dela. Olhava a vista da janela dela, do último andar de um prédio de cinco andares sem elevador. “Tem uma ponta aí na janela que eu acendi ontem, mas eu vou preparar um novo pra você. Mas se quiser já acender esse aí, fica a vontade.” Eu preferi esperar. Eu ia seguir as recomendações dela, queria que fosse certo.

“Então” – ela começou a falar, enquanto preparava o baseado – “o importante é que é diferente de fumar um cigarro. Quando a gente fuma a gente inala, mas sempre solta a fumaça em seguida. Com a maconha, o melhor é segurar uns segundos no pulmão antes de soltar. Mas com calma. Puxa devagar, segura e solta devagar. Mas cuidado! Você vai tossir, e muito. A fumaça é diferente, um pouco mais irritante. A pessoa pode ter sido fumante a vida inteira, mas a primeira vez que fumar maconha vai tossir pra caramba. Então puxa pouco na primeira vez, você vai sentindo o quanto você aguenta.” Eu ia ouvindo e observando o quarto ao redor. Como seria? O que de fato eu ia sentir? E se eu fosse aquele que dentre um milhão de pessoas fosse ter uma reação adversa e sofrer danos irreparáveis? Já sentia vergonha antecipada pela bobeira que eu poderia passar, provavelmente, mas procurava ficar calmo. Já tinha sido avisado que o estado emocional do momento influencia muito a experiência. “É como cerveja, que deixa você mais desinibido, mais alegre se estiver feliz e mais triste se estiver triste. Só que mais!”

Tá pronto, ela disse. Quer acender?

Eu traguei. Eu tossi. Mas o choque não foi instantâneo, apesar da tosse que eu já esperava. Mas o gosto da fumaça não era horrível. Meu corpo não teve uma reação fisiológica de nojo como com a cerveja ou com o tabaco. Traguei de novo e segurei. Soltei. E de novo. A gente passava o cigarro um para o outro. Eu comecei a sentir alguma coisa. É difícil lembrar exatamente, mas a cabeça zumbiu, a pele formigou e o corpo levou. Levou no sentido de ficou leve. Os movimentos ficaram lentos. A música passou de fundo sonoro para personagem principal. Até hoje ninguém acredita, mas juro que naquela primeira vez eu ouvi cores. Mas é mais provável que fosse uma interferência sináptica entre minha visão dos postêrs e os sons da música. Antes mesmo de chegar à metade do cigarro eu já tinha parado de fumar e pouco depois ela apagou por que também já tava de boa. “E aí, como tá se sentindo? Bateu?”

Tinha batido, era nítida a diferença sensorial. Era completamente diferente de se sentir bêbado. “Viu? Você sentiu de primeira. Muita gente demora pra sentir a maconha, inclusive eu. Eu acho que só senti mesmo a onda na terceira vez que fumei.” Eu não conseguia falar muito e ela me deixou ficar aproveitando a onda deitado na cama, e ficou lendo na cadeira.

Depois que a sensação na cabeça estabilizou, sentei na cama. “E aí? Tá bem?” Eu sorria feito um bobo, com uma leveza de espírito que nunca tinha sentido antes. O sorriso alargava tanto que eu tinha que me policiar no começo para não esticar demais o rosto. Começava uma vontade de rir. Rir de toda a situação. De sentir coisas novas no corpo que eu possuía há 21 anos neste mundo. De estar fumando algo que era envolvido em tanto mistério e ameaças. De estar ali no quarto dela. De estar ouvindo aquela música que preenchia meus ouvidos tão vivamente. Minha boca secou, bebi o refrigerante. Ela ria da minha cara. “Fico até com inveja sabe? Faz já muitos anos que experimentei pela primeira vez e no começo a gente sente muito mais intenso a viagem. Então aproveite este momento, ok?” Eu ouvia aquele prenúncio, mas não importava por que naquele momento era algo tão bom. “Eu me sinto bobo, com muita vontade de rir”, comecei respondendo, controlando um pouco da vontade de rir. “Parece que é exatamente como a gente vê nos filmes, realmente eu to ficando com vontade de rir e muito. E eu nem sei por quê! É tão clichê.” E então eu comecei a rir mais. Clichê. Esse foi o pensamento que permeou minha mente naquele momento, sobre o quanto, apesar das informações mistas sobre a maconha no mundo, eu sentia que me afetava exatamente como se dizia dos maconheiros estereótipos. Quanto mais eu pensava que eu estava agindo como um clichê de sitcom, mais eu achava engraçada a situação. E ria mais. E quanto mais ria, mais clichê ficava por estar rindo de uma coisa que a princípio não deveria ter graça. E quanto mais clichê parecia, mais eu ria. E passei uns cinco minutos sem conseguir falar, nesse feedback positivo de rir e virar clichê e rir do clichê que ficava mais engraçado e ria.

Eu tentava explicar pra ela porque que a situação era tão engraçada, como se tivesse que justificar tanta gargalhada. Ela só me olhava com uma cara de quem via uma criança rindo da piada mais velha do mundo pela primeira vez. “tá, mas é que é mais engraçado pra você agora. Eu entendi o que você disse, só não to no mesmo nível que você.” Não lembro muito do que conversamos na hora seguinte. Comi os salgadinhos quando bateu a larica. Acho que mostrei pra ela uma música que achava encaixar perfeitamente com a experiência chapada. Ela não achou nada demais. Vimos algum vídeo de youtube. Rimos. Papeamos. E logo logo passava o efeito. “Espera mais um pouco antes de ir, por que você vai dirigir daqui a pouco. É melhor dar um tempo antes. Mas vai ser tranquilo.” E foi tranquilo. Quando saí, fui caminhando pelo condomínio e depois pela rua até o carro naquele estado que voltava a ser “normal”. E como a vida seguia normal. O experimento tinha sido um sucesso. E agora estava munido de experiência para julgar a relação das pessoas e da sociedade com as drogas em geral. Passou alguns meses antes de ter outra oportunidade de fumar maconha, nem lembro com quem foi.

Agora vinham as perguntas fundamentais. Será que vicia? Eu sinto saudade da sensação, mas não é um desejo agoniante como a falta de nicotina. É uma saudade como se tem de uma boa lembrança de infância. Mas e se ficar mais forte o desejo com próximos usos? Eu sei que tem gente que usa durante anos e diz que não vicia, mas se ela usa há anos, não é por que está viciada? O que significa então ser um viciado? Eu sei que se eu tentar passar um dia sem fumar meu tabaco, eu fico agitado, agoniado, e a fumaça de nicotina dá um alívio instantâneo naquela sicura que foi causada pela própria nicotina em primeiro lugar. Eu sei que toda manhã eu tomo meu café preto, por que se não não sinto que acordei direito. Uma coisa que não acontecia antes de começar a beber café. E a outra pergunta: devo falar para minha mãe que experimentei maconha dessa vez? A resposta óbvia era que não. Primeiro por se tratar de algo ilegal. E depois do mau estar causado pela revelação de ter virado fumante de tabaco, era só de se esperar que seria muito pior admitir a maconha. E além do mais, não era como se eu possuísse baseados de maconha guardados em algum lugar ou tivesse acesso ao produto, então as chances de eu ser descoberto por acaso eram quase inexistentes. Não valia a pena falar do assunto, então.

Do meu grupo de amigos mais próximos, eu fui o segundo a experimentar a maconha. O primeiro tinha experimentado semanas ou meses antes de mim, quando tínhamos saído em grupo para conhecer um novo bar com temática de capitão do mar. Ele não era um tabagista e junto com os outros, às vezes me importunava pelo meu hábito de fumante, como amigos fazem. Mas de vez em quando ele próprio arranjava um cigarro quando bebia, o velho “só fumo quando bebo, não sou fumante.” Nesse bar, saiu uma hora pra ver se arranjava um cigarro. Quando voltou, falou com um sorriso na cara e um cochicho baixo: fumei maconha. Todos ficamos surpresos. “Você saiu pra fumar cigarro e voltou maconheiro?” Eu próprio, que ainda estava longe da minha decisão de experimentar, meio que o julguei mal pelo ocorrido. Achei que ele tinha sido irresponsável, mas cada um cada um e também já tinha acontecido, já era. “Mas e aí, como você se sente?” Ele disse que era uma sensação estranha, estranha boa, mas que não sabia se tinha fumado direito. Tinha dado um único trago do cigarro do cara que ofereceu.

Depois de já ter provado a maconha, mesmo sabendo que jamais poderia admitir para minha mãe, ainda sentia uma necessidade de confissão familiar. Resolvi falar para meu pai, que julgava que, mesmo que fosse me dar bronca, não seria um grande problema. Esperava que ele falasse sobre estar decepcionado ou que pelo menos, já que eu já tinha experimentado, que cessasse minha curiosidade e seguisse em frente. Quando falei com ele no fim de semana, em sua casa, ele hesitou. “É mesmo?”, perguntou. “E aí, o que achou?” Fiquei surpreso, por que não era a reação que eu esperava vinda de um pai para um filho que admitia uma quebra de protocolo social e da lei. Contei brevemente do que lembrava da experiência, das minhas motivações e dúvidas em torno do tema que levaram a decisão. E em seguida ele sorriu. “Sabe, esse é um momento com o qual eu sempre sonhei. É engraçado que você tenha vindo falar comigo primeiro do que eu a falar com você sobre maconha. Eu também usei maconha na minha vida e gostava muito. Mas já antes de você nascer eu parei de fumar durante todos os anos em que fui casado com sua mãe e que moramos todos na mesma casa. Mas eu pensava sobre esse momento em que você se depararia com esses paradoxos da sociedade sobre por que umas drogas podem e outras não, mas nunca soube como falar com você do assunto. Eu também tinha medo de falar no assunto e acabar legitimando para você o uso, por ser seu pai e falar com você sobre uma droga como a maconha, e admitir que já tinha usado antes. Eu não queria ter o peso de influenciador das suas decisões. Então fico feliz que você tenha tido essa experiência bacana com sua amiga. E que você tenha tido a confiança de vir falar comigo à respeito. Mas como pai, eu preciso fazer meu discurso. Sabe, por mais divertido que seja o uso da maconha, você tem que entender que tudo é uma questão de moderação. E que não é só por que você descobriu que a maconha, que é ilegal, não é tão má quanto dizem por aí, que as outras drogas ilegais não sejam perigosas também. Coisas como cocaína, heroína, ópio e seja lá o que for são realmente perigosas e altamente viciantes e podem comprometer o resto da sua vida pra valer. Você entende o que eu tô falando?” Sim, eu entendia. E concordava que essas outras substâncias eram um risco muito maior, que não dava pra fazer como tinha feito até agora de experimentar só pra ver o que que dá.

“Se algum amigo seu” – ele continuou – “que também fuma maconha quiser te empurrar pra experimentar coisas mais pesadas, não ceda, não se intimide. Respeite o cara e diga que prefere ficar só na maconha mesmo. Eu sei que às vezes a gente pode até se sentir pressionado em situações sociais. Que nem quando a gente sai com os amigos pra beber. A gente sempre acaba bebendo mais do que se estivesse sozinho ou fumando mais cigarros. Às vezes, se a pessoa diz que não bebe, ela pode até ser julgada por isso por pessoas que se diziam suas amigas e fazer ela se sentir menos ‘normal’ por não beber e acaba cedendo ao costume social. Então, o que eu quero que você entenda aqui, é que o risco das drogas vai além da substância, mas tem uma série de fatores que incluem a cultura e a sociedade em que a gente vive. E que o importante é tomar suas próprias decisões bem informadas e pensadas, e não influenciadas. É um equilíbrio que só se aprende no convívio, mas eu sei que você vai se dar bem nesse quesito.”

Depois da conversa, que seguiu um caminho muito diferente do que eu imaginava, me senti mais tranquilo. E agora sobrava novas perguntas. Meu pai diz que usou durante anos e depois passou mais anos sem usar. Será que vicia então? Eu entendo que muitas das drogas ilegais são atraentes justamente pela sensação boa que induz no corpo, mas que a maioria tinha altos preços de saúde a pagar e um poder de vício elevado. Mas eu tinha muitas evidências e fatos que caminhavam para dizer que a maconha não era uma substância perigosa. E que sua proibição era ainda algo muito curioso. Porque era ilegal? Quem decidiu isso? Quando se decidiu isso? E por que alguns países, como a Holanda, tinham leis diferentes para a maconha?

As perguntas ainda são muitas e a pesquisa continua. Hoje já sei muito mais sobre a espécie Cannabis e entendo um pouco mais sobre as diferentes relações sociohistóricas que regem as drogas e as sociedades no mundo. A guerra às drogas inventada por Richard Nixon e exportada para o mundo por Ronald Reagan parece estar chegando aos últimos fôlegos de sua existência. Mas as mudanças ainda são longas e complexas. E há muita educação ainda a ser feita no mundo para que as drogas passem a ser entendidas como questão de saúde pública e não de segurança pública. Que a criminalidade das drogas ilegais é consequência direta de sua ilegalidade, assim como aconteceu nos Estados Unidos no começo do século XX, quando o movimento pela temperança proibiu o álcool em todo o país. Se dizia do álcool o mesmo que muitos dizem hoje da maconha. Que vilipendia o homem, que o degenera e o torna um fardo para a sociedade. O resultado foi que as pessoas continuaram a consumir álcool, agora dominado por pessoas que agiam fora da lei, sem pagar imposto, sem controle de qualidade e tendo de montar um sistema de segurança próprio para proteger seu negócio. Eram as máfias que se fortaleciam, aumentando exponencialmente a criminalidade das cidades, muito mais do que todos os males que a proibição quis evitar com o álcool. Era o Governo guerreando com seus cidadãos, que de uma hora para outra foram tornados marginais.

Enfim, encerro aqui esse texto, que já tomou um rumo muito diferente do que quando comecei a escrever.

~Pedro Dias

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