A Pergunta

A Última Pergunta é um conto por Isaac Asimov. Após meu último post, Devaneios sobre o subcosmo, meu amigo Carity, que também acha Asimov fora de seu tempo, comentou com um link para este conto.

É simplesmente [insira comentário próprio]. Tanto, que coloco abaixo uma tradução livre do texto encontrado no seguinte link.

Multivax.org

Dias. Pedro.

A Última Pergunta por Isaac Asimov © 1956

A última pergunta foi feita pela primeira vez, meio que por brincadeira, em 21 de Maio de 2061, em uma época quando a humanidade se esclarecia pela primeira vez. A pergunta surgiu como resultado de uma aposta de cinco dólares, e aconteceu assim:

Alexander Adell e Bertram Lupov eram dois dos leais mantedores do Multivac. Tão bem quanto qualquer humano poderia, eles sabiam o quê se passava por trás da fria, piscante e clicante face – kilometros e kilometros de face — daquele gigante computador. Eles possuiam no mínimo uma vaga noção do esquema geral de relés e circuitos que há muito havia passado do ponto onde qualquer humano seria capaz de entender o todo.

O Multivac se auto-ajustava e auto-corrigia. Tinha que ser assim, pois nada humano poderia ajustar e corrigi-lo rápido o bastante ou mesmo adequadamente o bastante – então Adell e Lupov mantinham o monstruoso gigante apenas leve e superficialmente, mas ainda assim, tão bem quanto qualquer homem poderia. Eles lhe alimentavam com dados, ajustavam perguntas à suas necessidades e traduziam as respostas que eram retornadas. Certamente que eles, e todos os outros como eles, eram totalmente permitidos de compartilhar da glória que era do Multivac.

Por décadas, o Multivac havia ajudado a projetar as naves e trajetórias que permitiram o homem alcançar a Lua, Marte e Vênus, mas mais longe do que isso, os fracos recursos da Terra não poderiam manter as naves. Muita energia era necessária para as longas viagens. A Terra explorou seu carvão e urânio com uma crescente eficiência, mas havia apenas um tanto dos dois.

Mas lentamente o Multivac aprendeu o bastante para responder questões mais profundas de maneira mais precisa e fundamental, e em 14 de Maio de 2061, o que era teoria, se tornou fato.

A energia do Sol foi armazenada, convertida e utilizada diretamente em escala planetária. Em toda a Terra, parou-se a queima de carvão, a fissão de urânio e ligou-se o botão que conectava-a a uma pequena estação, com cerca de 1,6 kilometros em diâmetro, orbitando a Terra à meia distância entre a Lua. Toda a Terra suprida por raios invisíveis de energia solar.

Sete dias não haviam sido o bastante para diminuir a glória daquela conquista e Adell e Lupov finalmente escaparam da função pública e da mídia, e se encontraram em sigilo onde ninguém iria pensar em procurá-los, nas desertas câmaras subterrâneas, onde porções do poderoso corpo enterrado do Multivac aparecia. Isolado, constante, separando dados com preguiçosos cliques contidos, o Multivac, também, havia merecido suas férias e os rapazes reconheciam isso. Eles não tinham nenhuma intenção, a princípio, de pertubá-lo.

Eles haviam trazido uma garafa com eles, e sua única preocupação no momento era a de relaxar na companhia um do outro e da garrafa.

“É incrível quando você pára para pensar,” disse Adell. Seu rosto largo mostrava linhas de fraqueza, e ele mexia sua bebida lentamente com o misturador de vidro, observando os cubos de gelo. “Toda a energia que nós jamias pensamos em usar, de graça. Energia o bastante, se quiséssemos assim fazer, para derreter toda a Terra em uma gigante gota de ferro suja, e ainda ter energia sobrando. Toda a energia que nós poderíamos usar, para sempre, e sempre e sempre.”

Lupov inclinou sua cabeça para um lado. Ele tinham essa mania quando queria ser do contra, e ele queria ser do contra agora, parcialmente porque ele teve de carregar os copos e o gelo. “Pra sempre não,” ele disse.

“Ah, inferno, quase para sempre. Até que o Sol se apague.”

“Isso não é para sempre.”

“Está bem, então. Bilhões e bilhões de anos. Vinte bilhões, talvez. Satisfeito?”

Lupov passou seus dedos pelos cabelos, como para se lembrar de que ainda havia algum e bebeu de leve. “Vinte bilhões de anos não são para sempre.”

“Vai durar por toda nossa vida, não vai?”

“Assim iriam o carvão e urânio, também.”

“Está bem, mas agora nós podemos ligar cada espaçonave à Estação Solar, e ela poderá viajar até Plutão e voltar um milhão de vezes sem nunca se preocupar em acabar o combustivel. Você não pode fazer ISSO com carvão e urânio. Pergunte ao Multivac, se não me crê.”

“Eu não preciso perguntar ao Multivac. Eu sei disso.”

“Então pare de depreciar o quê ele fez por nós,” disse Adell. “Ele fez tudo certo.”

“Quem disse que não? O quê eu digo é que o Sol não irá durar para sempre. É só o quê eu digo. Nós estamos safos pelos próximos 20 bilhões de anos, mas e depois?” Lupov apontou um dedo levemente trêmulo para o outro. “E não diga que iremos mudar para outro Sol.”

Houve silêncio por um tempo. Adell levou seu copo à boca sem intenção de beber, e os olhos de Lupov lentamente fecharam. Eles descansaram.

Então os olhos de Lupov se abriram rapidamente. “Você está pensando que iremos trocar de Sol quando o nosso morrer, não está?”

“Eu não estou pensando.”

“Claro que está. Você é fraco com sua lógica, esse é o seu problema. Você é como o cara da história que foi pego numa chuva repentina e que correu para debaixo das árvores. Ele não estava preocupado, pois sabia que uma vez que uma árvore estivesse molhada demais e comessace a pingar nele, ele poderia ir para debaixo de outra.”

“Eu já entendi,” disse Adell.  “Não precisa gritar. Quando o Sol se apagar, outras estrelas terão se apagado também.”

“Pode apostar que vão”, Lupov resmungou. “Tudo teve um começo na explosão cósmica original, seja lá o quê tenha sido, e tudo terá um fim quando as estrelas se apagarem. Algumas se apagrão antes, outras depois. Porra, as gigantes não irão durar nem uma centena de milhões de anos. O Sol irá durar vinte bilhões de anos e talvez as anãs durem uma centena de bilhões. Mas espere um trilhão de anos e tudo será negro. A entropia tem que chegar à um máximo, isso é tudo.”

“Eu sei tudo sobre a entropia,” disse Adell, tentando manter sua dignidade.

“O diabo, que você sabe.”

“Eu sei tanto quanto você.”

“Então você sabe que tudo deve chegar a um fim um dia.”

“Está certo. Quem disse que não?”

“Você disse, seu palerma. Você disse que nós tínhamos toda a energia necessária para sempre. Você disse ‘para sempre’.”

Era a vez de Adell ser do contra. “Talvez nós possamos recosntruir as coisas de novo um dia,” ele disse.

“Nunca.”

“Porque não? Algum dia.”

“Nunca.”

“Pergunte ao Multivac.”

“Pergunte você. Eu te desafio. Cinco dólares como não pode ser feito.”

Adell estava apenas bêbado o bastante para perguntar, sóbrio o bastante para formular os simbolos lógicos necessários para representar a pergunta na fita magnética. Algo como: “Irá a humanidade um dia ser capaz de restaurar o Sol a sua juventude mesmo depois deste já ter se apagado?”

Ou talvez pudesse se colocar mais simplesmente assim: “Como pode a rede de entropia do universo ser massivamente revertida?”

Multivac morreu em silêncio.  As lentas luzes piscantes se apagaram, os distantes sons dos relés sumiram.

Então, quando os dois técnicos horrorizados pensavam não conseguir segurar mais seus fôlegos, houve um repentino surgimento de vida na tela acoplada àquela parte do Multivac. Seis palavras apareceram: DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

“Sem aposta,” Lupov sussurrou. Eles saíram apressadamente.

Na manhã seguinte, os dois, atacados pela ressaca, haviam esquecido de todo o incidente.

_____________________________

Jerrodd, Jerrodine e Jerrodete I e II assistiam à imagem pela janela mudar quando a passagem pelo hiper-espaço terminou em seu lapso atemporal. De uma vez, o aglomerado de estrelas deu lugar a predominância de um único disco branco brilhante, centrado.

“Aquele é X-23,” disse Jerrodd confiante. Suas finas mãos se firmaram atrás dele e seus punhos cerrados.

As pequenas Jerrodettes, ambas garotas, haviam experienciado o hiper-espaço pela primeira vez em suas vidas e estavam momentaneamente se sentindo pelo avesso. Elas seguraram suas risadinhas e correram uma atrás da outra em torno de sua mãe, gritando “Nós chegamos em X-23 – nós chegamos em X-23 – nós chega….”

“Silêncio crianças”, disse Jerrodine rispidamente. “Você tem certeza, Jerrodd?”

“O quê há para se ter certeza?” perguntou Jerrodd, olhando de esguelha para a peça de metal logo abaixo do teto da nave. Aquilo corria o comprimento da sala, desaparecendo pela parede em ambos os lados. Era tão comprido quanto a própria nave.

Jerrodd sabia escarçamente algo sobre a vara de metal exceto que era chamado de Microvac, que alguém lhe fazia perguntas se desejasse; que se alguém não o fizesse ainda havia tarefas de guiar a nave à um destino pré-determinado; de se alimentar da energia das várias Estações de Força Sub-Galácticas; de computar as equações necessárias ao salto no hiper-espaço.

Jerrodd e sua família tinham apenas que esperar e viver confortavelmente nas residências da nave.

Alguém havia dito à Jerrodd uma vez que o “ac” no fim de “Microvac” significava “computador analógico” em inglês antigo, mas ele estava no limite de esquecer até isso.

Os olhos de Jerrodine estavam lacrimejando enquanto ela olhava pela janela. “Não posso evitar. Eu me sinto estranha em deixar a Terra.”

“Pelo amor de Pete, por que?” perguntou Jerrodd. “Nós não tinhamos nada lá. Nós teremos tudo em X-23. Você não estará sozinha. Você não será uma pioneira. Existem milhões de pessoas neste planeta já. Meu deus, nossos bisnetos estarão procurando por novos mundos pois X-23 estará superpovoado.”

Então, após uma pausa para reflexão, “Eu lhe digo, é uma sorte que os computadores trabalharam na questão das viagens interestelares, do jeito que as coisas cresceram.”

“Eu sei, eu sei,” disse Jerrodine tristemente.

Jerrodette I disse prontamente, “Nosso Microvac é o melhor Microvac que existe.”

“Eu concordo,”disse Jerrodd, mexendo em seu cabelo.

Era uma sensação boa ter um Microvac próprio e Jerrodd estava feliz por fazer parte de sua geração e não outra. Na juventude de seu pai, os únicos computadores que haviam eram máquinas tremendas ocupando centenas de kilometros quadrados de terra. Havia apenas um por planeta. Eram chamados de ACs Planetários. Eles cresciam em tamanho constantemente por milhares de anos e de repente, veio o refinamento. No lugar de transistores utilizava-se válvulas moleculares de modo que mesmo o maior AC Planetário caberia no espaço de apenas metade do volume de uma nave.

Jerrodd se sentiu revigorado, como sempre se sentia quando ele pensava que seu Microvac era muitas vezes mais complicado que o antigo e primitivo Multivac que havia domado o Sol e sua energia, e quase tão complexo quanto o AC da Terra (o maior) que havia solucionado os problemas da viagem hiperespacial e feito as viagens às estrelas possíveis.

“Tantas estrelas, tantos planetas,” suspirou Jerrodine, ocupada com seus pensamentos. “Eu imagino que familias estarão indo para novos planetas para sempre, do jeito que as coisas vão.”

“Não para sempre,” disse Jerrodd, com um sorriso. “Tudo irá parar um dia, mas não por bilhões de anos. Muitos bilhões. Mesmo as estrelas se apagarão, sabe. A entropia deve aumentar.”

“O quê é entropia, papai?” perguntou Jerrodette II.

“Entropia, querida, é uma palavra que significa a quantidade de paralização do universo. Tudo pára, sabe, como o seu pequeno robô walkie-talkie, lembra?”

“Você não pode trocar as pilhas, como o meu robô?”

“As estrelas são as pilhas, querida. Umavez que elas se apaguem, não terá mais energia.”

Jerrodette I começou a choramingar. “ Não deixe, papai. Não deixe as estrelas se apagarem.”

“Veja só o quê você fez, “ sussurou Jerrodine.

“Como eu podia saber que elas iriam se assustar?” Jerrodd sussurrou de volta.

“Pergunte pro Microvac,” pediu Jerrodette I. “Peça pra ele ligar as estrelas de volta.”

“Vá em frente,” disse Jerrodine. “Irá acalmá-las.” Jerrodette II começava a chorar também.

Jerrodd se encolheu. “Acalmem-se queridas. Eu vou perguntar ao Microvac. Não se preocupem, ele nos dirá.”

Ele perguntou ao Microvac, adicionando “Imprimir resposta.”

Jerrodd apanhou a fita de cellufilme e disse alegremente, “Vejam só, o Microvac disse que irá cuidar de tudo quando a hora chegar, então não se preocupem.”

Jerrodine disse, “E agora crianças, é hora de ir dormir. Estaremos em casa em breve.”

Jerrodd leu as palavras no cellufilme mais uma vez antes de destruí-lo: DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

Ele deu de ombros e olhou pela janela. X-23 estava à frente.

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VJ-23x de Lameth encarou a negra profundeza do mapa tridimensional em pequena escala da galáxia e disse, “Nós somos ridículos, me pergunto, por estarmos tão preocupados com o assunto?”

MQ-17j de Nicron balançou sua cabeça. “Eu acredito que não. Você sabe que a galáxia estará cheia em cinco anos na atual taxa de expansão.”

Ambos pareciam em seus vinte anos, ambos altos e bem formados.

“Ainda assim,” disse VJ-23x,”eu hesito em submeter um relatório pessimista ao Conselho Galáctico.”

“Eu não consideraria outro tipo de relatório. Agite-os um pouco. Nós temos de agitá-los.”

VJ-23X suspirou. “o espaço é infinito. Uma centena de bilhões de galáxias estão por aí para serem tomadas. Mais até.”

“Uma centena de bilhões não é infinito e está ficando menos infinito o tempo todo. Considere! Vinte mil anos atrás, a humanidade solucionou o problema de utilizar energia estelar, e em poucos séculos, as viagens interestelares se tornaram realidade. Levou um milhão de anos para a humanidade povoar um planeta e apenas quinze mil para encher o resto da galáxia. Agora a população dobra a cada dez anos e….”

VJ-23X interrompeu. “Nós podemos agradecer à imortalidade por isto.”

“Pois bem. A imortalidade existe e nós temos que levá-la em conta. Eu admito que tem seu lado ruim, esta imortalidade. O AC Galáctico tem resolvido muitos problemas para nós, mas ao solucionar o envelhecimento e a morte, desfez todas as suas outras soluções.”

“Ainda assim, você não iria querer abandonar a vida, eu suponho.”

“De jeito nenhum,” disse MQ-17J rapidamente, acalmando-se e seguindo “Ainda não. Eu não sou velho o bastante. Quantos anos você tem?”

“Duzentos e vinte e três. E você?”

“Eu ainda estou abaixo dos duzentos. –Mas de volta ao meu ponto. A população dobra a cada dez anos. Uma vez que a galáxia esteja cheia, nós teremos outra cheia em dez anos. Mais dez anos e teremos enchido outras duas. Outra década, quatro mais. Em cem anos, teremos preenchido mil galáxias. Em mil anos, um milhão. Em dez mil anos, todo o universo conhecido. E depois?”

VJ-23X disse, “Em uma questão paralela, existe o problema de transporte. Eu imagino quantas unidades de energia solar serão necessárias para mover galáxias de pessoas de uma galáxia à outra.

“Um bom ponto. Atualmente, a humanidade já consome duas unidades de energia solar por ano.”

“A maior parte desperdiçada. Afinal, nossa própria galáxia sozinha se extingue de mil unidades de energia solar e nós usamos apenas duas.”

“Mesmo que obtivéssemos uma eficiência de cem por cento, nós apenas adiaríamos o fim. Nossas necessidade energéticas estão crescendo em progressão geométrica mais rápido que nossa população. Nós ficaremos sem energia antes mesmo de ficarmos sem galáxias. Um bom ponto. Muito bom ponto.”

“Nós teremos então que construir novas estrelas a partir de poeira cósmica.”

“Ou a partir de calor dissipado?” perguntou MQ-17J, sarcásticamente.

“Deve haver algum meio de reverter a entropia. Nós deveríamos perguntar ao AC Galáctico.”

VJ-23X não estava falando sério, mas MQ-17J puxou seu terminal de contato com o AC do bolso e colocou na mesa diante dele.”

“Eu já havia pensado nisso” disse ele. “É algo que a humanidade deverá encarar um dia.”

Ele encarou sombriamente seu terminal. Tinha apenas cinco centimetros cúbicos e nada dentro de si, mas estava conectado através do hiperespaço com o grande AC Galáctico que servia a humanidade. Considerado o hiperespaço como é e funciona, o terminal era uma parte integral do próprio AC Galáctico.

MQ-17J parou para imaginar se algum dia em sua vida imortal ele iria ver o AC Galáctico. Ele estava em um planetinha próprio, uma teia de raios de força segurando a matéria em que os sub-meéons tomavam o lugar das antigas e desajeitadas válvulas moleculares. Mesmo com um funcionamento de escala subetérica, o AC Galáctico era conhecido por ter mil metros de largura.

MQ-17J perguntou de repente ao seu terminal, “A entropia pode ser revertida?”

VJ-23X o encarou e disse, “Eu não quis realmente dizer para você perguntar isso.”

“Por que não?”

“Nós dois sabemos que a entropia não pode ser revertida. Você não pode transformar cinzas de volta em uma árvore.”

“Você tem árvores no seu mundo?” perguntou MQ-17J.

O som do AC Galáctico entrou em silêncio. Sua voz veio fina e suavemente do terminal na mesa. Ele disse: EXISTEM DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

“Viu?”, disse VJ-23X.

Os dois homens retornaram então à questão do relatório que deveriam entregar ao Conselho Galáctico.

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A mente de Zee Prime vasculhou a nova galáxia com pouco interesse pelas incontáveis estrelas que se espalhavam por ela. Ele nunca havia visto essa antes. Algum dia ele veria todas elas? Existiam tantas delas, cada qual com sua carga de humanos – mas uma carga que era quase um peso morto. Mais e mais, a verdadeira essência dos homens se encontrava aqui, no espaço.

Mentes, não corpos! Os corpo imortais permaneciam nos planetas, em suspensão sobre éons. Algumas vezes eles se voltavam para prazeres materiais, mas isto se tornava cada vez mais raro. Poucos indivíduos novos passavam a existir e a se juntar a incrível massa, mas e daí? Havia pouco espaço físico no universo para novas pessoas.

Zee Prime estava feliz em ter se encontrado com outra mente vagante.

“Eu sou Zee Prime,” disse Zee Prime. “E você?”

“Eu sou Dee Sub Wun. Sua galáxia?”

“Nós chamamos apenas de a Galáxia. E você?”

“Nós chamamos a nossa do mesmo. Todos os homens chamam suas galáxias de Galáxia e nada mais. Por que não?”

“Verdade. Já que todas as galáxias são iguais.”

“Não todas. Em uma em particular a corrida do homem deve ter se originado. Isto a faz diferente.”

Zee Prime disse, “Em qual delas?”

“Eu não sei dizer. O AC Universal saberia.”

“Devemos perguntá-lo? Estou repentinamente curioso.”

A percepção de Zee Prime se expandiu até que as galáxias em si encolhessem e se tornassem uma nova, mais difusa profusão num fundo muito maior. Tantas centenas de bilhões delas, todas com sua carga de seres imortais, todas carregando sua carga de inteligências com mentes vagando livremente pelo espaço. E ainda assim uma delas era única entre as outras por ser a galáxia original. Uma delas teve, em seu passado vago e distante, um período em que era a única galáxia habitado pelo homem.

Zee Prime foi consumido  pela curiosidade de ver esta galáxia e chamou: “AC Universal! Em qual galáxia a humanidade se originou?”

O AC Universal ouviu, pois em cada mundo e pelo espaço, ele possuia receptores prontos, e cada receptor se ligava pelo hiperespaço até algum ponto desconhecido onde o AC Universal se mantinha isolado.

Zee Prime soube de apenas um homem cujos pensamentos penetraram a ponto de sentir a distância do AC Universal, e ele viu apenas um globo brilhante, com 5 metros em tamanho, difícil de enxergar.

“Mas como pode ser apenas isso o AC Universal?” Zee Prime havia perguntado.

“A maior parte dele, “ havia sido a resposta,  “está no hiperespaço. Em que forma ele está lá, não consigo imaginar.”

Nem poderia qualquer um, pois há muito tempo, Zee Prime sabia, que qualquer homem havia deixado de fazer parte de um AC Universal. Cada AC Universal projetava e construia seu sucessor. Cada um, durante suas existências de milhões de anos ou mais acumulando os dados necessários para construir um sucessor melhor, mais intrincado e capaz no qual seus próprios dados e individualidade se juntariam ao novo.

O AC Universal interrompeu os devaneios de Zee Prime, não com palavras, mas com liderança. Mentalmente, Zee Prime foi guiado até um mar fosco de galáxias, onde uma em particular se engrandecia em estrelas.

Um pensamento veio, infinitamente distante, mas infinitamente claro. “ESTA É A GALÁXIA ORIGINAL DO HOMEM.”

Mas era igual às outras afinal, e Zee Prime sentiu seu desapontamento.

Dee Sub Wun, cuja mente havia acompanhado o outro, disse subtamente, “E alguma dessas estrelas é a estrela original do homem?”

O AC Universal disse, “A ESTRELA ORIGINAL DO HOMEM HÁ MUITO SE TORNOU SUPERNOVA. É AGORA APENAS UMA ANÃ BRANCA.”

“Os homens de lá morreram?” perguntou Zee Prime sem pensar.

O AC Universal disse, “UM NOVO MUNDO, EM TAIS CASOS, É CONTRUÍDO PARA SEUS CORPOS FÍSICOS EM TEMPO.”

“Sim, é claro,” disse Zee Prime, mas uma sensação de perda se abateu sobre ele. Sua mente abandonou a Galáxia do Homem, deixando-a se perder entre os pontos borrados. Ele nunca mais queria vê-la.

Dee Sub Wun disse, “Qual o problema?”

“As estrelas estão morrendo. A estrela original está morta.”

“Todas elas devem morrer. Porque não?”

“Mas quando toda a energia se for, nossos corpos finalmente morrerão, e você e eu com eles.”

“Vai levar bilhões de anos.”

“Eu não quero que aconteça mesmo em bilhões de anos. AC Universal! Como se pode evitar que as estrelas morram?”

Dee Sub Wun disse por diversão, “Você está perguntando como reverter a direção da entropia?”

E o AC Universal respondeu. “AINDA EXISTEM DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

Os pensamentos de Zee Prime fugiram de volta para sua própria galáxia. Ele não deu mais atenção a Dee Sub Wun, cujo corpo deveria estar aguardando milhões de anos-luz distante ou em uma estrela próxima à de Zee Prime. Não importava.

Sem felicidade, Zee Prime começou a coletar hidrogênio interestelar para construir uma pequena estrela própria.  Se as estrelas devem morrer, pelo menos algumas poderiam ser construídas.

____________________________________________________________

O Homem considerou consigo mesmo, pois de certa maneira, Homem, mentalmente, era um. Ele consistia  de um trilhão de trilhão de trilhão de corpos imortais, cada um em seu lugar, cada um repousando quieta e incorruptivelmente, cada um cuidado por automatons perfeitos, igualmente incorruptíveis, enquanto as mentes de todos os corpos espontâneamente se fundiram em um, indistinguivelmente.

O Homem disse, “O universo está morrendo.”

O Homem observou as galáxias que se apagavam. As estrelas gigantes, há muito haviam se apagado, no mais remoto do remoto passado. Quase todas as estrelas se tornaram anãs brancas, se apagando até o fim.

Novas estrelas haviam sido construídas a partir de poeira cósmica, algumas por processo natural, algumas o Homem construiu, e essas estavam sumindo também. Anãs brancas ainda poderiam ser colididas umas com as outras e das forças liberadas, novas estrelas construídas, mas apenas uma estrela para cada mil anãs brancas destruídas, e essas chegariam a um fim também.

O Homem disse, ”Cuidadosamente, como dito pelo AC Cósmico, a energia que ainda resta no universo deverá durar ainda por bilhões de anos.”

“Mas ainda assim,” disse o Homem, “enventualmente chegará a um fim. Não importa como, a energia uma vez gasta se vai, e não pode ser restaurada à sua forma original. A entropia deve crescer ao máximo.”

O Homem disse, “A entropia não pode ser revertida? Vamos perguntar ao AC Cósmico.”

O AC Cósmico envolveu-os, mas não no espaço. Nenhum fragmento dele estava no espaço. Ele estava no hiperespaço e feito de algo que não era nem matéria ou energia. A questão de seu tamanho e natureza não possuia mais significado em quaisquer termos que o Homem pudesse compreender.

“Ac Cósmico, “ disse o Homem, “como se pode reverter a entropia?”

O Ac Cósmico respondeu: ”AINDA EXISTEM DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

O Homem disse, “Colete dados adicionais.”

O AC Cósmico disse, “EU IREI. EU TENHO FEITO ISTO POR CENTENAS DE BILHÕES DE ANOS. ESTA PERGUNTA FOI FEITA A MEUS PREDECESSORES E À MIM MUITAS VEZES. TODOS OS DADOS QUE EU POSSUO CONTINUAM INSUFICIENTES.”

“Chegará um tempo,” perguntou o Homem,”em que os dados serão suficientes ou esta é uma questão insolúvel em todas as circunstâncias possíveis?”

O AC Cósmico disse, “NENHUM PROBLEMA É INSOLÚVEL EM TODAS AS POSSÍVEIS CIRCUNSTÂNCIAS.”

O Homem perguntou, “Quando você terá dados suficientes para responder?”

“AINDA EXISTEM DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

“Você continuará trabalhando na questão?”, perguntou o Homem.

O AC Cósmico respondeu, “EU IREI.”

O Homem respondeu, “Nós iremos esperar.”

____________________________________________________________

As estrelas e as galáxias morreram e se extinguiram, e o espaço cresceu vazio depois de dez trilhões de anos.

Um a um, o Homem se fundiu com o AC, cada corpo físico perdendo sua identidade mental em uma maneira que não era uma perda, mas um ganho.

A última mente do Homem parou antes da fusão, olhando para o espaço que incluia nada além dos resquícios de uma última estrela negra e nada além de matéria incrivelmente fina, agitada aleatóriamente pelas abas finais de calor se extinguindo, asimtomaticamente, ao zero absoluto.

O Homem disse, “AC, este é o fim? Este caos não pode ser revertido de volta ao universo uma vez mais? Isto não pode ser feito?”

AC respondeu,”AINDA EXISTEM DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

A última mente do Homem se fundiu e somente AC existia – e este no hiperespaço.

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Matéria e energia haviam acabado e com elas, o tempo e o espaço. Mesmo o AC existia apenas para a última pergunta que nunca havia sido respondida desde o tempo de que um  meio bêbado dez trilhões de anos antes havia perguntado a um computador que não era nada comparado ao AC tanto quanto um homem não era nada comparado ao Homem.

Todas as outras questões haviam sido respondidas, e até que esta ultima questão fosse respondida também, AC não poderia abandonar sua consciência.

Todos os dados coletados chegaram ao fim. Não havia nada mais a ser coletado.

Mas todos os dados coletados deveriam ainda ser completamente correlacionados e agrupados em todas as maneiras possíveis.

Um intervalo atemporal foi gasto fazendo isso.

E chegou o ponto em que AC aprendeu como reverter a entropia.

Mas não havia nenhum homem a quem o AC pudesse dar a resposta à ultima pergunta. Não importa. A resposta – por demonstração – iria cuidar disso, também.

Por outro intervalo atemporal, AC pensou na melhor maneira de se fazer isto. Cuidadosamente, AC organizou o programa.

A consciência do AC comparou tudo o quê um dia havia sido o universo com o quê agora não passava de caos. Passo a passo, isto deve ser feito.

E AC disse, “QUE HAJA LUZ!”

E a luz se criou…..

Tradução: Pedro Dias

Você pode conhecer Asimov melhor por Eu, Robô!, que é um livro de contos da série dos robôs de Asimov. O filme não representa nenhum conto original de Asimov, apenas seguindo o conceito.

O motivo de você não conhecer mais sobre suas histórias é por existir copyright em cima de todo seu trabalho, que só se encerrará em 2074. É um tanto difícil encontrar seus textos na internet.

Mais informações no site Multivax.

Comments
2 Responses to “A Pergunta”
  1. Victor Carity disse:

    Eu nem precisei ler para saber que é 42…
    Os contos de Isaac podem ser complicados de achar, mas os livros nem tanto. A aleph tem 5 publicações dele na livraria.
    Semana passada eu comprei o box com a trilogia da Fundação. XD

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